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Pico do Cambirela
12/06/06
 

Já fazia um bom tempo que estávamos namorando aquele pico. Pico do Cambirela (montanha próxima do mar), com uma altitude de 1.043m, o suficiente para imaginarmos que vista teríamos, lá em cima, de Florianópolis e região.

 


03/06 - Marcamos para as 7h20 o ponto de encontro na Intelbras (São José). Já às 8h, procurávamos pelo início da trilha, perguntando aos moradores da região. Antes de tudo, ficamos estarrecidos com o que víamos. Alerta para o absurdo: uma enorme cratera, gigantesca mesmo, cada vez maior na base da montanha. Caminhões (com tamanho proporcional a uma formiga diante de um formigueiro), dezenas deles, e escavadeiras, muitos trabalhadores e pouca consciência do que ali faziam. Até quando o homem vai achar que retirar terra e cascalho inconseqüentemente de uma área de preservação permanente é mais importante que a sua conservação? Teoria de Gaia, meus senhores...

Por volta das 8h10, entrávamos num sítio bastante aprazível, com belo lago, patos e gansos, cultivo florido de nabo e, ao fundo, nosso objetivo. Do campo de pastagem para um magnífico portal de árvores, desejando boas-vindas aos intrépidos trilheiros e uma miríade delas em seqüência, indicando o caminho para uma trilha repleta de deliciosos obstáculos. Bromélias em tons rubro-amarelados, pássaros Capitão-do-Mato, entre outras riquezas da região, nos convidavam para admirar suas singularidades.

Em um determinado ponto da mata preservada, uma grata surpresa: cipó Escada-de-Macaco - motivo de delírio. Design fabuloso de uma inspiração criada pela Mãe de todos nós.


Primeiro obstáculo

Após uma bela caminhada por mata fechada, eis o primeiro grande obstáculo: uma pequena escalaminhada. Tivemos que nos apoiar em raízes, troncos, galhos e pedras, até que... (momento de ligeira apreensão):
- Cuidado aí embaixo!!!!!
- Ufa!
- Bom reflexo, Fábio!
Acabara de desviar de uma pedra que descia em velocidade, pirambeira abaixo.

Logo um belíssimo cenário se descortinava à nossa frente, com visual para Pedra Branca ao fundo, Palhoça embaixo, Rio Cubatão... a Ponte Hercílio Luz do outro lado, Ilha de Santa Catarina... uaaau!!! Continuamos. Subimos segurando a corda e, a partir daí, começaria o segundo desafio, ainda maior.


O segundo desafio

Olhar para baixo? Melhor não. Só tinha um jeito: escalar. A mata fechada ficava para trás, deixando boas recordações. Mãos e pés sobre pedras como se subíssemos numa escada a quase 90° perpendicular ao chão. Aos poucos, a determinação, segurança e solidariedade entre os trilheiros venciam o medo de goleada.

Em um determinado momento, tivemos que nos segurar nas cordas, inclinando o corpo para frente e depositando toda confiança no sucesso da investida. Nossa! A vista impressionava, compensando qualquer esforço. Dali em diante, tínhamos uma certeza: não retornaríamos mais por este trecho extremamente íngreme.


Caminhando pela crista da montanha

Iniciamos uma caminhada pela crista de uma cadeia de montanhas, rumo ao primeiro cume. Do lado, uma pintura com traçados sinuosos de morros verdejantes, do outro, Florianópolis, com destaque para Ribeirão da Ilha, Campeche, Enseada de Brito (Palhoça) logo embaixo...

Depois do visual de tirar o fôlego e muita caminhada, adivinha? Quando achamos que tínhamos chegado... "Olha lá, mais um cume que tínhamos que conquistar!"

E mais subida. Agora, sem escalada. Chegamos a um ponto para contemplar e compartilhar o que víamos. O que dizer de tudo isso... Show! Mas aí olhamos para mais ao sul e não acreditamos que a saga não havia terminado. Uns deram por cumprida missão. Outros não pensaram duas vezes: "Ah, aquele terceiro cume (o mais alto de todos e ainda escondido antes de chegar ao segundo) não vai ficar inexplorado não."
E fomos lá - caminhada de fácil acesso, então - até que... um forte nevoeiro encobriu toda nossa visão.


O terceiro cume

Que pecado... Havíamos começado a ver a Enseada de Brito, a Praia da Pinheira, Guarda do Embaú...Uma pena a vista prejudicada pelas nuvens, no entanto fincamos a bandeira da conquista de mais um desafio suplantado. Agora é hora de retornar. Vamos com a gente? Vamos!


O retorno e as pirambeiras da vida

Escolhemos uma trilha mais tranqüila. Será? Estava ali uma pirambeira enlameada, com muita aventura e gargalhadas com os escorregões. Descemos toda vida e mais um pouco, nos segurando no que conseguíamos e no que não conseguíamos. Novamente em mata fechada. Passamos por alguns trechos, digamos, um tanto perigosos, como o "solo oco" coberto por folhas secas e terra numa ribanceira abaixo para ninguém botar defeito e sequer ter a coragem de fotografá-la. Só lembro de um falando: "Não olha para baixo! Gruda na terra que nem aranha na teia".

Passada a sensação de perigo, continuamos a trilha felizes com a possibilidade de termos conhecido um lugar encantador. No final, contávamos os arranhões como troféus, nos indignávamos com os dois sacos de lixo de 100 litros que enchemos com a irresponsabilidade dos demais e relembrávamos das histórias engraçadas e intrigantes, como as duas divas que encontramos lá no topo em trajes aristocraticamente corretos, chale e roupa impecável (só faltou salto alto), ainda degustando cachos de uva itália. Chegamos por volta das 16h.

Três de junho de 2006: dia para ficar marcado como aquele em que fizemos uma trilha para entrar para o hall das dez mais.

Agradecimentos: Claudia Beltrame, Fábio Rodrigo, Solange Ruschel, Elizete Ruschel, Joel Rodrigues, Luiz Antônio, Roger, Édna e Thiago.

De latitude 27° 45' sul e longitude 48° 40' oeste, o Cambireirela (ou Gambirela) é uma montanha composta por granito e basalto, comumente encontrados em regiões fronteiriças entre a Serra do Mar e a Serra Geral, com formações geológicas diferenciadas, de vegetação remanescente da Mata Atlântica até cerca de 800 m de altitude - após, encontram-se basicamente gramíneas e pouca vegetação de altitude - situada no município brasileiro de Palhoça, na Grande Florianópolis, estado de Santa Catarina. O mais triste de tudo está na cratera de uma pedreira imensa agredindo a paisagem e o maciço, no entanto a vida resiste: proprietários da lavoura têm tentado reconstituir a ferida com a plantação de árvores, num esforço de cicatrizá-la por causa da exploração mineral.


Márcio Alexandre
caminhandopelavida@gmail.com

 

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