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Já
fazia um bom tempo que estávamos namorando
aquele pico. Pico do Cambirela (montanha
próxima do mar), com uma altitude de
1.043m, o suficiente para imaginarmos
que vista teríamos, lá em cima, de Florianópolis
e região.
03/06 - Marcamos para as 7h20
o ponto de encontro na Intelbras (São
José). Já às 8h, procurávamos
pelo início da trilha, perguntando aos
moradores da região. Antes de tudo,
ficamos estarrecidos com o que víamos.
Alerta para o absurdo: uma enorme cratera,
gigantesca mesmo, cada vez maior na
base da montanha. Caminhões (com tamanho
proporcional a uma formiga diante de
um formigueiro), dezenas deles, e escavadeiras,
muitos trabalhadores
e pouca consciência do que ali faziam.
Até quando o homem vai achar que retirar
terra e cascalho inconseqüentemente
de uma área de preservação permanente
é mais importante que a sua conservação?
Teoria de Gaia, meus senhores...
Por volta das 8h10, entrávamos num
sítio bastante aprazível, com belo lago,
patos e gansos, cultivo florido de nabo
e, ao fundo, nosso objetivo. Do campo
de pastagem para um magnífico portal
de árvores, desejando boas-vindas aos
intrépidos trilheiros e uma miríade
delas em seqüência, indicando o caminho
para uma trilha repleta de deliciosos
obstáculos. Bromélias em tons rubro-amarelados,
pássaros Capitão-do-Mato, entre outras
riquezas da região, nos convidavam para
admirar suas singularidades.
Em
um determinado ponto da mata preservada,
uma grata surpresa: cipó Escada-de-Macaco
- motivo de delírio. Design fabuloso
de uma inspiração criada pela Mãe de
todos nós.
Primeiro obstáculo
Após uma bela caminhada por mata fechada,
eis o primeiro grande obstáculo: uma
pequena escalaminhada. Tivemos que nos
apoiar em raízes, troncos, galhos e
pedras, até que... (momento de ligeira
apreensão):
- Cuidado aí embaixo!!!!!
- Ufa!
- Bom reflexo, Fábio!
Acabara de desviar de uma pedra que
descia em velocidade, pirambeira abaixo.
Logo um belíssimo cenário se descortinava
à nossa frente, com visual para Pedra
Branca ao fundo, Palhoça embaixo, Rio
Cubatão... a Ponte Hercílio Luz do outro
lado, Ilha de Santa Catarina... uaaau!!!
Continuamos. Subimos segurando a corda
e, a partir daí, começaria o segundo
desafio, ainda maior.

O segundo desafio
Olhar
para baixo? Melhor não. Só tinha um
jeito: escalar. A mata fechada ficava
para trás, deixando boas recordações.
Mãos e pés sobre pedras como se subíssemos
numa escada a quase 90° perpendicular
ao chão. Aos poucos, a determinação,
segurança e solidariedade entre os trilheiros
venciam o medo de goleada.
Em um determinado momento, tivemos
que nos segurar nas cordas, inclinando
o corpo para frente e depositando toda
confiança no sucesso da investida. Nossa!
A vista impressionava, compensando qualquer
esforço. Dali em diante, tínhamos uma
certeza: não retornaríamos mais por
este trecho extremamente íngreme.
Caminhando pela crista da montanha
Iniciamos
uma caminhada pela crista de uma cadeia
de montanhas, rumo ao primeiro cume.
Do lado, uma pintura com traçados sinuosos
de morros verdejantes, do outro, Florianópolis,
com destaque para Ribeirão da Ilha,
Campeche, Enseada de Brito (Palhoça)
logo embaixo...
Depois do visual de tirar o fôlego
e muita caminhada, adivinha? Quando
achamos que tínhamos chegado... "Olha
lá, mais um cume que tínhamos que conquistar!"
E mais subida. Agora, sem escalada.
Chegamos a um ponto para contemplar
e compartilhar o que víamos. O que dizer
de tudo isso... Show! Mas aí olhamos
para mais ao sul e não acreditamos que
a saga não havia terminado. Uns deram
por cumprida missão. Outros não pensaram
duas vezes: "Ah, aquele terceiro
cume (o mais alto de todos e ainda escondido
antes de chegar ao segundo) não vai
ficar inexplorado não."
E fomos lá - caminhada de fácil acesso,
então - até que... um forte nevoeiro
encobriu toda nossa visão.

O terceiro cume
Que
pecado... Havíamos começado a ver a
Enseada de Brito, a Praia da Pinheira,
Guarda do Embaú...Uma pena a vista prejudicada
pelas nuvens, no entanto fincamos a
bandeira da conquista de mais um desafio
suplantado. Agora é hora de retornar.
Vamos com a gente? Vamos!
O retorno e as pirambeiras da vida
Escolhemos uma trilha mais tranqüila.
Será? Estava ali uma pirambeira enlameada,
com muita aventura e gargalhadas com
os escorregões. Descemos toda vida e
mais um pouco, nos segurando no que
conseguíamos e no que não conseguíamos.
Novamente em mata fechada. Passamos
por alguns trechos, digamos, um tanto
perigosos, como o "solo oco" coberto
por folhas secas e terra numa ribanceira
abaixo para ninguém botar defeito e
sequer ter a coragem de fotografá-la.
Só lembro de um falando: "Não olha para
baixo! Gruda na terra que nem aranha
na teia".

Passada a sensação de perigo, continuamos
a trilha felizes com a possibilidade
de termos conhecido um lugar encantador.
No final, contávamos os arranhões como
troféus, nos indignávamos com os dois
sacos de lixo de 100 litros que enchemos
com a irresponsabilidade dos demais
e relembrávamos das histórias engraçadas
e intrigantes, como as duas divas que
encontramos lá no topo em trajes aristocraticamente
corretos, chale e roupa impecável (só
faltou salto alto), ainda degustando
cachos de uva itália. Chegamos por volta
das 16h.
Três de junho de 2006: dia para
ficar marcado como aquele em que fizemos
uma trilha para entrar para o hall
das dez mais.
Agradecimentos: Claudia Beltrame,
Fábio Rodrigo, Solange Ruschel,
Elizete Ruschel, Joel Rodrigues, Luiz
Antônio, Roger, Édna e
Thiago.
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De
latitude 27° 45' sul e longitude
48° 40' oeste, o Cambireirela
(ou Gambirela) é uma montanha
composta por granito e basalto,
comumente encontrados em regiões
fronteiriças entre a Serra
do Mar e a Serra Geral, com formações
geológicas diferenciadas,
de vegetação remanescente
da Mata Atlântica até
cerca de 800 m de altitude - após,
encontram-se basicamente gramíneas
e pouca vegetação
de altitude - situada no município
brasileiro de Palhoça,
na Grande Florianópolis,
estado de Santa Catarina. O mais
triste de tudo está na
cratera de uma pedreira imensa
agredindo a paisagem e o maciço,
no entanto a vida resiste: proprietários
da lavoura têm tentado reconstituir
a ferida com a plantação
de árvores, num esforço
de cicatrizá-la por causa
da exploração mineral.
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