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Noite de sexta-feira na Ilha de casos
e ocasos raros. A chuvinha chata do
primeiro dia de setembro persistia.
Tudo bem, dei uma corridinha do estacionamento
até a porta da Creperia Nouvelle Vague
e quase não me molhei, apesar de ter
ficado com dor no baço. Boas lembranças:
estive pela última vez nesse lugar há
exatos dez anos, quando assisti a um
show do Daniel Lucena e comi crepe de
sorvete. Hoje eu ia ver a estréia do
ARENA, um grupo de hard rock com ótimas
referências, e comer crepe, obviamente.
Sim, tem gente que sai pra tomar chope;
eu saio pra comer crepe.
Movimento fraco nos dois primeiros
ambientes: um casalzinho aqui, outro
casalzinho ali, um grupinho da terceira
idade num canto, meia dúzia de yuppies
mais adiante, etc. Em compensação, no
fundão da casa, onde tinha palco montado,
barzinho e meia-luz, os fãs do "rock
farofa" (ou "hair metal", como
queiram) já disputavam os melhores lugares
pra não perder nada do que vinha pela
frente. E o que vinha pela frente era
Breaking All The Rules, do Peter
Frampton.
Rogério
Otto, o "Devil", no vocal, Juliano Diniz
e o lendário Douglas Narcizo nas guitarras,
Eduardo Stéfani no baixo, Felipe Bampi
nos teclados e Antônio Murara na bateria,
logo de cara deixaram clara a proposta
do ARENA: provar que o rock dos anos
oitenta ainda é infinitamente superior
a tudo que surgiu nas décadas seguintes.
Love Ain't No Stranger (Whitesnake),
na seqüência, parecia um playback,
de tão bem executada. Eye of The
Tiger, do Survivor, imediatamente
trouxe recordações de Rocky, O Lutador,
assim como The Power of Love (Hue
Lewis) nos mandou a todos De Volta
para o Futuro. Até na escolha de
canções improváveis a banda acertou:
Born To Be My Baby, a única grande
música do Bon Jovi, por acaso, ficou
excelente. Em parte por que Rogério
Devil, o "Otto", muito provavelmente,
é o melhor vocalista de rock de Santa
Catarina, sou capaz de apostar.
Antes do fim do primeiro bloco ainda
teve mais Whitesnake, Journey e (como
não poderia deixar de ser) Van Halen,
com a clássica Jump. Douglas
e Juliano, aparentemente possuídos,
encarnavam o velho Eddie, enquanto Murara,
Stéfani e Bampi garantiam "tapas na
orelha" de um público entusiasmado e
caloroso. Pausa para o crepe. Recomendo
o Coyote, que vem com bacon, queijo
e ovo.
Pouco depois da uma da madrugada, o
povo se rearranjando pra esperar a volta
da banda, reparei que era o Marcelo
Passos quem comandava a mesa de som.
Tava explicado o porquê dos instrumentos
tão bem equalizadinhos e dos graves
na medida certa. O gordinho é o cara!
Don't Stop Believin' (uma das
melhores músicas já feitas, na minha
modesta opinião), do Journey, abriu
caminho para outras maravilhas: Throwaway,
do segundo disco solo do Mick Jagger;
Is This Love, a do Whitesnake,
não a do Bob Marley; Rebell Yell,
do Billy Idol, que ganhou mais peso
nas mãos do grupo; e até You Really
Got Me, do Kinks, versão do Van
Halen. Na hora do bis, já que ninguém
ia arredar pé mesmo, Otto Devil, o "Rogério",
conclamou a turma entre trinta e quarenta
para entoar o hino Livin' On a Prayer.
Por pouco, muito pouco, não me pegaram
cantarolando Bon Jovi discretamente.
Duas em ponto, fim de festa. Não houve
quem não saísse da Nouvelle Vague sem
um sorriso no rosto. O show do ARENA
lavou a alma de alguns, estourou os
tímpanos dos desavisados, enfim: mesmo
depois de tudo, dando um pique pra fugir
da chuva e chegar ao carro antes de
sofrer uma parada respiratória, foi
bom demais descobrir que em Floripa
existe uma banda cover muuuito mais
legal do que todas as outras juntas.
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