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Entrei
no Teatro Álvaro de Carvalho na noite
de quinta-feira com ouvidos semi-virgens
da música de Erlend Oye. Sobre o cantor
e compositor norueguês tinha apenas
parcas referências, como algumas canções
de seu grupo (na verdade um duo) Kings
of Convenience e resenhas do Lúcio Ribeiro.
Mas levei comigo a vontade meio adolescente
de conhecer coisas novas, ainda que
muitas novidades pareçam reconfigurações
de tudo que já foi feito anteriormente.
O TAC estava cheio, justa recompensa
para o pessoal da Polifônica, gente
bacana que ajuda a afastar a Ilha do
marasmo cultural e trouxe um dos músicos
mais cultuados do momento ("cultuados
por quem?" questionou certa vez o jornalista
Sérgio Rodrigues. Não é preciso especificar,
já que parte da mídia transformou "cultuar"
em verbo intransitivo). Quando Erlend
apareceu no palco acompanhado apenas
do violão, os sinais de admiração do
público já eram visíveis. Eu, que não
sei nem o nome da capital da Noruega,
pude finalmente sair da caverna e descobrir
que por aqueles lados da Escandinávia
se faz música boa. Sua figura quase
risível, magrelão com óculos de aros
enormes e calça jeans velha, seu bom
humor e simplicidade contrastavam com
os acordes melancólicos e letras de
desalento, sobre perdas e solidão. As
influências mais óbvias de sua música
são as melhores possíveis, Smiths, Belle
& Sebastian, Galaxie 500, Kevin McCarthy,
Simon and Garfunkel, entre outros que
devolveram ao rock o lirismo esquecido.
Erlend
se comunicava em inglês e a maioria
do público entendia tudo. Certa hora
do show dirigiu-se até o piano de cauda,
que eu nem havia notado que estava ali,
e tocou uma canção, justificando-se:
"não costumo fazer isso nos shows, mas
como ouvir alguém tocando quinze músicas
só no violão deve encher o saco, pedi
para que me arrumassem um piano ". Logo
depois, fez piada da dinâmica de suas
músicas: "ouvindo uma seguida da outra
dá a impressão que são todas bem iguais,
não?". A bela e triste Cayman Island
e o sucesso I´d rather dance with
you foram alguns dos bons momentos
de um show homogêneo, sem sobressaltos
de climas, sem altos e baixos.
No
final da apresentação tocou duas músicas
dos Smiths, half a person e heaven
knows I´m misareble now, e aí pude
me reconhecer em meio ao desconhecimento;
foi uma bela homenagem à banda
de Manchester, de quem gosto bastante
desde a época em que era o moleque mais
nerd do ensino médio; não há modernidade
que resista à nostalgia fresca das grandes
canções. Por fim, reverenciou outro
gênio: emendou à sua homesick
o clássico de Bob Dylan, don´t think
twice, it´s alright. Minutos antes,
havia pedido para que todas as luzes
fossem apagadas. Requisição
atendida, sugeriu que todos iluminassem
o teatro com as luzes dos celulares.
Sinal dos tempos... Há menos de dez
anos ainda iluminávamos o palco com
isqueiros. Mais nostálgico que moderno,
Erlend Oye utiliza a fórmula mais simples
de agradar os ouvidos mais exigentes:
músicas simples, melodias "desabotoadas",
letras bacanas. Não vai revolucionar
a música, romper paradigmas ou salvar
o rock. Mas salvou a quinta-feira de
muita gente. E isso já é muita coisa.
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