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Não foi por acaso que a produção do
Floripa Instrumental escolheu Guinga
para encerrar a série de apresentações
no Teatro Álvaro de Carvalho, nesta
sexta, dia 15. É da nossa cultura esperar
a consagração do ato final, a apoteose,
o grand finale. Em um concerto,
é necessário que o último acorde continue
a soar no ouvido do público mesmo algum
tempo depois de seu término. O espetáculo
final dos três dias de música instrumental
brasileira deixou a impressão de que
ele não poderia terminar de maneira
melhor. A harmonia do violão de Guinga
é remanso de sons e silêncio, nas mais
belas paisagens sonoras que existem.
Os três banquinhos no palco vazio indicavam
que ele não viria sozinho. Felizmente,
não era apenas produção de cena. Guinga
sentou em um deles pontualmente, às
20h30, ao lado de Jessé Sadoc, um dos
grandes trompetistas em atividade no
Brasil.
O
som do trompete, ora estridente nas
notas mais altas, ora suave com a surdina,
transformava as melodias das composições
de Guinga em suspiros, devaneios. Os
arranjos bem cuidados ressaltaram a
qualidade de um dos maiores compositores
brasileiros de todos os tempos. O que
chamou a atenção, quando surgiu no palco,
foi o fato de ele ser a cara de David
Byrne. Bastou surgirem os primeiros
acordes, porém, para que qualquer outro
detalhe fosse esquecido. Tudo nele é
ritmo e melodia, a começar pelo nome,
Guinga, que lembra ginga; ou mandinga,
que ele deve ter usado para encontrar
harmonias únicas, acordes impossíveis.
Na segunda parte do show chamou Marcus
Tardelli, violonista, e, visivelmente
emocionado, falou sobre o parceiro,
que acaba de lançar Unha e carne,
disco com composições de Guinga em arranjos
para violão solo. "Ele tem idade para
ser meu filho, mas musicalmente é um
pai pra mim. O mundo vai ouvir falar
muito dele. Os gênios são assim mesmo,
demoram a ser reconhecidos (...) Para
mim, é o maior violonista que esse país
já produziu. Ao lado de Segóvia e George
Benson, um dos três melhores do mundo".
Tardelli, embaraçado, apenas agradeceu.
E não amarelou. Quando tocou "baiões",
o ex-integrante do Quarteto Maogani
mostrou que as palavras anteriores de
seu mestre não eram exageradas. Quem
foi para ver Guinga, viu Marcus Tardelli.
Sem qualquer resquício de vaidade, parou
de tocar por algum tempo, admirando
a música junto com o público e o que
parecia miragem, virou oásis. Encerrou
a apresentação cantando Senhorinha
com apenas um fiapo de voz, suficiente
para emocionar a todos.
O Floripa Instrumental trouxe beleza
sonora para um povo carente de boas
opções culturais. Shows como o da última
sexta são raros, o talento não é democrático.
Os gênios vagam por aí e é uma dádiva
encontrar com algum deles. Desembolsamos
dez reais para uma apresentação que
na Europa custaria quinhentos. O investimento
foi pequeno e o retorno, inestimável.
Quem foi ao TAC nos últimos dias pôde
desintoxicar-se da vulgaridade, pobreza
musical, barbárie estética. Que seja
assim, mesmo que por poucas horas. Que
o lirismo e a poesia preencham nossos
breves intervalos entre som e silêncio.
Muitas outras vezes.
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