No show de comemoração dos trinta anos
de carreira de Guinha Ramires, em 2004,
Yamandú Costa, um dos convidados da
noite, referiu-se ao amigo como um dos
maiores músicos do Brasil, em todos
os tempos. Foi a minha primeira surpresa
da noite, já que, cheio de preconceitos,
tinha a falsa impressão de que Yamandú
não elogiava ninguém além de si mesmo.
Mais tarde, nas andanças pela Lagoa
da Conceição à procura de boa música,
pude presenciar outras apresentações
de Guinha e comprovei que não eram elogios
exagerados, daqueles que fazemos aos
amigos às vezes. O violonista gaúcho,
que mora em Florianópolis há mais de
vinte anos, além de ser compositor de
raro talento está sempre acompanhado
por músicos brilhantes. A tradição se
manteve no show Encontro Marcado,
no Jinga Bar, último sábado (16/12).
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Guinha
Ramires
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Márvio Pereira, músico e dono do bar,
falou sobre a importância daquele encontro:
"São músicos que vivem na Áustria e
Alemanha e raramente têm a chance de
tocar juntos. Um show desse acontece
mais ou menos a cada ano bissexto",
brincou. Pouco antes da meia-noite,
Márvio apresentou o trio ao público,
que já ocupava praticamente todas as
mesas do local: Guinha Ramires (violão),
Alegre Corrêa (violão e guitarra) e
Pedro Tagliani (guitarra e voz). Falar
sobre os três, separadamente, pode ser
redundante, já que compartilham as virtudes
comuns dos grandes instrumentistas.
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| Alegre Corrêa |
Alegre Corrêa é absolutamente fantástico;
tem o ouvido tão apurado e a capacidade
de improvisar tão grande que reproduzia
com a voz a melodia dos solos, cantando
todas as notas de seus fraseados jazísticos.
Pedro Tagliani é outro monstro da música
instrumental; mesmo tocando solos rapidíssimos
parece escolher cada nota com extremo
cuidado. Sua versatilidade de ritmos
transparece até nos títulos de algumas
de suas canções: Samba curto,
Choro alegre e Afoxé danado.
O timbre belíssimo de sua guitarra e
as harmonias em quartas me lembraram
a sonoridade de Pat Metheny e Stanley
Jordan.
Tanto
talento reunido no ambiente agradabilíssimo
do Jinga Bar não poderia
mesmo resultar em algo menor
que
o encantamento. Bares são mesmo os melhores
locais para reencontros. E não era um
encontro qualquer; era
a reunião de três gênios da música,
três amigos que não escondem o prazer
de fazer música, que não deixam a técnica
ser refém da vaidade, nem são afeitos
às demonstrações baratas de virtuosismo.
É quase inacreditável assistir a um
espetáculo desse nível não nos teatros
de Viena, Berlim ou Budapeste, mas ali
na
Avenida das Rendeiras, a poucos metros
de onde os pescadores saem para trabalhar.
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Pedro
Tagliani
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Ao
final da apresentação, o público agradeceu
com demorados aplausos a chance de
presenciar
um momento tão raro. Não foram aplausos
burocráticos, do ritual obrigatório de
qualquer espetáculo, mas aplausos de reverência,
de êxtase musical. A gravação de um DVD,
que será lançado na Europa, permitirá
que outras pessoas, além dos privilegiados
que foram ao Jinga Bar no final de semana,
possam assistir a um concerto inigualável,
que elevou a música até o patamar mais
elevado de sofisticação e beleza. |