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Existe um tipo muito raro de compositor:
aquele que consegue colocar som e poesia
em um mesmo patamar de qualidade; transforma
curtas melodias em experiências únicas;
valoriza da mesma maneira letra e música,
os principais elementos que constroem
o sentido poético das canções. Quando
dois desses músicos dividem o mesmo
palco, a noite deixa de presenciar um
simples show e torna-se testemunha de
um grande acontecimento.

"Vamos começar colocando um ponto final".
Com essa frase paradoxal, da música
Tudo novo de novo, Paulinho Moska
abriu seu show em parceria com Vitor
Ramil. Era a primeira apresentação do
projeto Duo Itapema FM, no Restaurante
Panorâmico do LIC. Não havia mesas de
jantar no restaurante, apenas cadeiras
em frente ao palco. As mais próximas,
nas seis primeiras filas, formavam a
área VIP. Em uma cadeira da primeira
fila, uma senhora bem vestida reclamava
que ali o som ficava muio alto e as
luzes refletiam forte em seu rosto;
é o preço que se paga por ser Very
Important Person... Próximo das
caixas de som que incomodaram a senhora,
era possível perceber todas as nuances
dos dois violões; apenas com voz e violão
as canções adquiriam sua forma mais
verdadeira e a poesia, sua parte mais
viva: quarto de não dormir/ sala
de não estar/ porta de não abrir/ pátio
de sufocar.
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No canto direito do palco, perto dos
banheiros, uma garota cantava todas
as letras trançando o cabelo com os
dedos. Parecia que admirava igualmente
os dois, indistintamente. E são, sem
dúvida, dois grandes nomes da atual
música brasileira. O compositor gaúcho
surpreende em cada verso de suas letras
melancólicas e nos acordes incomuns,
de leves desarmonias. O carioca que
um dia já tentou ser só Moska continua
sendo Paulinho. A numerologia tira algumas
letras do nome, mas felizmente não tira
o talento. O público ria, escutava com
atenção e assistia a cada pequeno detalhe
com olhos de encantamento. E também
pedia suas favoritas: um rapaz empolgado
pediu A seta e o alvo umas oito
vezes. Foi surpreendido, também, por
uma versão blues, completamente
diferente daquela que fez sucesso e
até tocou em novela da Globo. "Vamos
ver até onde o nada nos leva", disse
Moska. Outro cidadão gritava "Estrela,
estrela!" insistentemente. Vitor
Ramil deixou para tocá-la no final,
como é usual.
Ramil
disse que aquele show fora pouco ensaiado
e o resultado, no fim, seria surpresa
para todos, até para eles. A minha maior
surpresa foi não ter conseguido me dispersar
de perto do palco; vivi a agonia de
quem espera chegar a música ruim para
buscar uma cerveja e permanece até o
final com a mesma lata vazia. Sem problemas.
A bebida pode esperar, mas a beleza
é urgente; não avisa quando irá aparecer
de novo. Paulinho Moska e Vitor Ramil
fizeram com que todos que acompanharam
o show se sentissem Very Important
People.
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