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As bandas instrumentais Constantina
e Colorir mostraram, no palco do TAC,
quase todas as possibilidades sonoras
existentes e fizeram um show memorável.
É
um exagero afirmar que o show Música
Livre: Colorir & Constantina, produzido
pela Polifönica, foi o melhor espetáculo
musical realizado em Florianópolis nos
últimos duzentos anos, mas para quem
tem o ofício de descrevê-lo, a hipérbole
talvez seja o único recurso possível.
As duas bandas transformaram o ambiente
do Teatro Álvaro de Carvalho em um mosaico
de experimentalismos sonoros e colagens
visuais, subverteram lógicas harmônicas,
sugeriram uma forma nova de perceber
os sons que vai além de apenas ouvir.
Pareciam buscar, a todo o instante,
um ponto perceptivo imaginário, um elo
comunicativo entre o mundo material
e as manifestações do inconsciente.
A denominação "música livre" adquire,
aqui, seu sentido mais literal.
A dupla Colorir, de Florianópolis, é
formada por Pedro Paiva e Peter Gossweiler
e foi a primeira a subir no palco. Com
apenas uma guitarra, alguns efeitos
e meia bateria, os dois músicos surpreenderam
desde o início ao radicalizar a idéia
de experimentar sonoridades diferentes.
Pedro Paiva, na guitarra, apresentava
os acordes mais dissonantes possíveis,
cheios de trítonos (intervalos musicais
carregados de tensão) que não se resolviam,
em freqüências sonoras irregulares,
enquanto a bateria de Peter Gossweiler
pulsava andamentos incomuns, em compassos
complexos.
Alguns
minutos depois, ainda com a música em
andamento, a banda mineira Constantina,
formada por seis integrantes, uniu-se
a Colorir, como se restabelecesse a
ordenação natural da música, com melodias
mais amenas e menos desarmonias. Mas
esse processo logo é interrompido e
de repente ruídos e desafinações juntam-se
a paisagens sonoras belas e límpidas,
criando uma estrutura sonora única,
contraditória, provocante. Na primeira
parte do show, uma única canção de 45
minutos de duração, com muitas variações
de climas, em um conflito contínuo entre
a ordem e o caos, o peso e a leveza.
Uma projeção em uma tela instalada no
fundo do palco mostrava cenas surreais,
grotescas e belas que não mantinham
uma relação lógica com os sons, o que
permitia qualquer tipo de interpretação.
Outro filme foi projetado em todo o
interior do teatro, do teto até a parede.
As imagens se movimentavam a todo o
instante, o que reafirmava a proposta
do espetáculo, de despertar vários tipos
de percepções, sem qualquer limite,
e dar significações a toda a sorte de
absurdo, sonoro ou visual. O sentido
da música muitas vezes não está nas
partes que a formam (melodia, ritmo
e harmonia), mas em toda a estrutura
inominável perceptível em sua forma,
os timbres, reverberações, ecos, silêncios.
A miscelânea de sons, silêncios e ruídos
despertou uma ebulição de sensações
na platéia, sentimentos que transitavam
entre a repulsa e o encantamento. Ainda
no início da apresentação algumas pessoas
abandonavam o teatro, outras olhavam
assustadas e uma garota na minha frente
chegou até a cochilar. Uma hora e meia
de show, com apenas um intervalo separando
um número de outro, realmente é algo
com o qual não estamos acostumados.
Mas enquanto minha porção racional ainda
procurava entender os significados daquilo
tudo, meu subconsciente delirava freneticamente
e parecia compreender perfeitamente
cada partícula de som.
Mais informações e músicas:
Colorir em www.myspace.com/colorir.
Constantina em www.tramavirtual.uol.com.br
Polifönica - Revista e Produtora
de Música Brasileira em www.polifonica.com.br
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