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Joris Roelofs: o prodígio do sax em ótima companhia

10/02/07
 










              "E o que há de mais passageiro do que      um som, afinal, suspenso no ar enquanto vibram os lábios do músico?"

(Arthur Nestrovski)

Há mais músicos fantásticos entre o céu e a terra do que sonha minha vã coleção de discos. Joris Roelofs, jovem saxofonista holandês, considerado um dos grandes virtuoses europeus da atualidade, deu uma canja no Jinga Bar completamente lotado, na última quarta-feira, junto com Guinha Ramires (violão), Alessandro Kramer (acordeon), Rafael Calegari (contrabaixo), Endrigo Bettega (bateria) e Alegre Corrêa (guitarra). Não conhecia Joris, mas a ignorância tem lá suas vantagens; pode trazer o prazer íntimo da descoberta. De qualquer forma, o quinteto que o acompanhava era garantia de qualidade.

É impossível recriar a atmosfera musical criada pelos seis instrumentistas, mas o show foi mais ou menos assim:

23h37 - Joris Roelofs improvisa seqüências melódicas limpas e elegantes. A palavra "improviso", aqui, não significa repentino, imprevisto, tudo aquilo que é feito sem preparação, como explica o dicionário; Joris sopra ora notas de longa duração, ora uma sucessão de muitas notas em um segundo, soando como se escolhesse cada uma delas criteriosamente, como quem compõe uma curta sinfonia.

23h58 - Alessandro Kramer, o Bebê, começa a se destacar. Parece carregar com tranqüilidade a alcunha de gênio, explorando as múltiplas possibilidades harmônicas, tensões, dissonâncias, com a facilidade de quem executa uma peça infantil. Alegre Corrêa usa os acordes da guitarra como contraponto, inverte acordes, inventa contracantos enquanto Joris e Bebê fazem a melodia principal. Todas as qualidades da música, timbre, altura, duração e intensidade, são exploradas até o limite, e a execução chega perto do sublime.

0h23 - Em dos primeiros temas da noite, o quinteto inventa um trecho do Hino Nacional em ritmo de tango, como se Piazzola resolvesse homenagear o Brasil. Alegre Corrêa havia dito que não houve ensaio antes da apresentação. Melhor assim; músicos desse nível sabem como, quando e o quê tocar. E quanto mais assistimos aos caras tocando, mais nos surpreendemos com a sonoridade que tiram dos instrumentos.

0h47 - Alegre Corrêa, que até então apenas acompanhava, improvisa, solfejando as melodias do solo, como costuma fazer; explora possibilidades rítmicas e melódicas que pareciam nem existir. Se o som é também sentido, Alegre Corrêa faz soar na guitarra todas as significações possíveis.

1h11 - Intervalo. A fila do banheiro é extensa e as pessoas parecem tentar se recuperar da catarse sonora e voltar à realidade mundana do bate-papo e das necessidades biológicas. O silêncio, única contrapartida possível de quem assistia ao espetáculo, pôde fazer uma pausa, por alguns minutos.

1h48 -Endrigo Bettega, um metrônomo humano, faz um solo de bateria que agrada até quem não é lá muito chegado em batuques. Com levadas absurdas e viradas impressionantes, valorizando todos os timbres da bateria, faz levantar os poucos que ainda estavam sentados e até as bebidas sacodem dentro da garrafa.

2h46 - O baixista Rafael Calegari e Guinha Ramires permanecem quase escondidos, no canto esquerdo do palco. Guinha, um dos grandes compositores brasileiros, parece preferir a discrição, concentrado nas músicas, imerso em sua inspiração silenciosa. Os músicos tocam dando risada, cada um rindo da genialidade do outro. Acaba o show, um dos grandes concertos já presenciados em Florianópolis. Alguém comenta do meu lado que o som do sexteto "parece CD, de tão perfeito". Mas o CD não consegue reproduzir a poética do instante, de sons que só a audição despretensiosa e imediata pode perceber.

É muito raro alguém tocar daquele jeito e Joris, Alegre, Alessandro, Guinha, Rafael e Endrigo tocam tudo. E esse "tudo" não tem, necessariamente, um limite.


Daniel Mendonça
danielpxmendonca@uol.com.br
Fotos: Tatiana Kito 

 

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