|

"E
o que há de mais passageiro do que um
som, afinal, suspenso no ar enquanto
vibram os lábios do músico?"
(Arthur
Nestrovski)
Há mais músicos fantásticos
entre o céu e a terra do que sonha minha
vã coleção de discos. Joris Roelofs,
jovem saxofonista holandês, considerado
um dos grandes virtuoses europeus da
atualidade, deu uma canja no Jinga Bar
completamente lotado, na última quarta-feira,
junto com Guinha Ramires (violão), Alessandro
Kramer (acordeon), Rafael Calegari (contrabaixo),
Endrigo Bettega (bateria) e Alegre Corrêa
(guitarra). Não conhecia Joris, mas
a ignorância tem lá suas vantagens;
pode trazer o prazer íntimo da
descoberta. De qualquer forma, o quinteto
que o acompanhava era garantia de qualidade.
É impossível recriar a
atmosfera musical criada pelos seis
instrumentistas, mas o show foi mais
ou menos assim:
23h37 - Joris Roelofs improvisa seqüências
melódicas limpas e elegantes. A palavra
"improviso", aqui, não significa repentino,
imprevisto, tudo aquilo que é feito
sem preparação, como explica o dicionário;
Joris sopra ora notas de longa duração,
ora uma sucessão de muitas notas em
um segundo, soando como se escolhesse
cada uma delas criteriosamente, como
quem compõe uma curta sinfonia.
23h58
- Alessandro Kramer, o Bebê, começa
a se destacar. Parece carregar com tranqüilidade
a alcunha de gênio, explorando as múltiplas
possibilidades harmônicas, tensões,
dissonâncias, com a facilidade de quem
executa uma peça infantil. Alegre Corrêa
usa os acordes da guitarra como contraponto,
inverte acordes, inventa contracantos
enquanto Joris e Bebê fazem a melodia
principal. Todas as qualidades da música,
timbre, altura, duração
e intensidade, são exploradas
até o limite, e a execução
chega perto do sublime.
0h23 - Em dos primeiros temas da noite,
o quinteto inventa um trecho do Hino
Nacional em ritmo de tango, como se
Piazzola resolvesse homenagear o Brasil.
Alegre Corrêa havia dito que não houve
ensaio antes da apresentação. Melhor
assim; músicos desse nível sabem como,
quando e o quê tocar. E quanto
mais assistimos aos caras tocando, mais
nos surpreendemos com a sonoridade que
tiram dos instrumentos.

0h47 - Alegre Corrêa, que até então
apenas acompanhava, improvisa, solfejando
as melodias do solo, como costuma fazer;
explora possibilidades rítmicas e melódicas
que pareciam nem existir. Se o som
é também sentido, Alegre
Corrêa faz soar na guitarra todas as
significações possíveis.
1h11 - Intervalo. A fila do banheiro
é extensa e as pessoas parecem tentar
se recuperar da catarse sonora e voltar
à realidade mundana do bate-papo e das
necessidades biológicas. O silêncio,
única contrapartida possível de quem
assistia ao espetáculo, pôde fazer uma
pausa, por alguns minutos.
1h48 -Endrigo Bettega, um metrônomo
humano, faz um solo de bateria que agrada
até quem não é lá muito chegado em batuques.
Com levadas absurdas e viradas impressionantes,
valorizando todos os timbres da bateria,
faz levantar os poucos que ainda estavam
sentados e até as bebidas sacodem
dentro da garrafa.
2h46 - O baixista Rafael Calegari e
Guinha Ramires permanecem quase escondidos,
no canto esquerdo do palco. Guinha,
um dos grandes compositores brasileiros,
parece preferir a discrição, concentrado
nas músicas, imerso em sua inspiração
silenciosa. Os músicos tocam dando risada,
cada um rindo da genialidade do outro.
Acaba o show, um dos grandes concertos
já presenciados em Florianópolis. Alguém
comenta do meu lado que o som do sexteto
"parece CD, de tão perfeito". Mas
o CD não consegue reproduzir a poética
do instante, de sons que só a
audição despretensiosa e imediata pode
perceber.
É muito raro alguém tocar daquele jeito
e Joris, Alegre, Alessandro, Guinha,
Rafael e Endrigo tocam tudo. E esse
"tudo" não tem, necessariamente, um
limite.
|