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Sabes onde eu vou hoje?
- Nem imagino.
- No show do Nazareth.
- Cover?
- Não, são os caras mesmos.
- O Nazareth, Nazareth?
- É, aqueles que tocavam Love hurts.
E foi assim a semana toda. Neguinho
(branquinho também) perguntando por
que é que eu tava tão empolgado - Ganhou
na Loteca? É a lua nova? Viu o passarinho
do Incrível Hulk? - e eu respondendo
que ia ao show da banda que mais ouvi
nas rádios quando era guri. Sim, os
escoceses do Nazareth, com apenas dois
dos integrantes da formação original
de 1968 (sessenta anos de idade cada
um), estavam mesmo prestes a se apresentar
na Ilha de casos e ocasos raros.
Aconteceu na sexta passada, dia 20,
no Floripa Music Hall, uma casa de espetáculos
como nunca se viu na cidade, no mesmo
lugar onde antes funcionava um supermercado
bem xexelento, quase em frente ao Terminal
Rita Maria. Recepcionistas e seguranças
impecavelmente vestidos, sorriso no
rosto, iluminação na medida, decoração
de bom gosto em meia dúzia de ambientes,
estrutura de primeiro mundo - gente
que morou na Inglaterra me garantiu
que por lá não existe coisa tão impressionante
- e um público refinado (eu chutaria
quase duas mil pessoas), confortavelmente
acomodado na pista e nos camarotes.
A média de idade era alta, mas o clima
era de uma nostálgica adolescência dos
anos setenta.
Passava
um pouco das dez horas quando Dan McCafferty
(o cabeludo da inconfundível voz rouca)
e o baixista Pete Agnew, mais o atual
guitarrista Jimmy Murrison e o baterista
Lee Agnew (filho de Pete), subiram ao
palco. O som estava quase cristalino,
não fosse a voz muito baixa e ligeiramente
distorcida. O problema demorou a ser
corrigido, porém, pouca gente deve ter
notado. Razamanaz foi o primeiro
hit a levantar a galera. Com
Dream on, pouco depois, tinha
gente chorando (eu vi, juro). O simpático
vocalista, entre uma música e outra,
divertia-se a valer repetindo as palavras
que havia decorado em português: "obrigado"
e "Floripa".
Ninguém tirava os olhos do palco. E
quem sabia cantava junto. Parecia inacreditável
que aqueles senhores (ou tiozões, como
diria a pirralhada contemporânea), que
compuseram a trilha sonora de uma geração
inteira, estivessem ali, quase ao alcance
dos ouvidos. O hard rock dos
veteranos, bem mais evidente ao vivo
do que em estúdio, continuou sem pausa
pra respiração com Turn on your receiver,
This flight tonight e com a divertida
My white bicycle. No melhor momento
da noite, a casa quase veio abaixo quando
Lee fez uma firulinha na bateria e Murrison
(guitarrista apenas razoável, de muita
pose e pouca técnica), na sua Gibson
Les Paul, entrou com os acordes de Love
leads to madness, numa versão bem
mais lenta, cantada em coro do início
ao fim.

Além dos grandes sucessos (Where
are you now e Holly roller, inacreditavelmente,
ficaram de fora), o grupo tocou canções
do disco novo, com lançamento previsto
para setembro, e outras menos conhecidas
do grande público (duas ou três eu nunca
tinha ouvido, me perdoem a ignorância),
para delírio dos fãs de carteirinha.
Na seqüência, como não poderia deixar
de ser, Love hurts justificou
o valor do ingresso. Love hurts
que, muita gente não sabe, é originalmente
dos Everly Brothers, regravada
pelo quarteto em 1975.
Pouco antes do bis, quase sem descanso,
a pequena multidão, encantada com a
performance de Dan McCafferty - um pouco
menos cabeludo, porém, com a voz ainda
rouca, que em certos momentos lembrava
Janis Joplin e, em outros, Bon Scott
-, gritava: Nazaré! Nazaré! Nazaré!
Tive a nítida impressão de que a Renata
Sorrah ia surgir no meio da nuvem de
gelo seco, mas foram Dan, Pete, Jimmy
e Lee que reapareceram para encerrar
com Hair of the dog (teve até
gaita-de-foles) e Broken down angel,
quando a falha na equalização voltou
a aparecer: guitarra muito mais alta
que os outros instrumentos, aguda além
da conta. E assim como no começo do
show, ninguém tava nem aí pra esses
detalhes.
Depois
de uma hora e meia sem tirar, o Floripa
Music Hall, agora já com o palco vazio,
transformara-se numa boate, como se
nada tivesse acontecido. A não ser,
claro, pela expressão de satisfação
no rosto de cada admirador da banda,
que esteve no lugar certo, na hora certa,
muito provavelmente pela última vez
na trajetória de quarenta anos do (incrível,
inimitável, inesquecível) Nazareth.
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