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Nazareth no Floripa Music Hall
ou "A montanha veio a Maomé"

23/04/07

 

- Sabes onde eu vou hoje?
- Nem imagino.
- No show do Nazareth.
- Cover?
- Não, são os caras mesmos.
- O Nazareth, Nazareth?
- É, aqueles que tocavam Love hurts.

E foi assim a semana toda. Neguinho (branquinho também) perguntando por que é que eu tava tão empolgado - Ganhou na Loteca? É a lua nova? Viu o passarinho do Incrível Hulk? - e eu respondendo que ia ao show da banda que mais ouvi nas rádios quando era guri. Sim, os escoceses do Nazareth, com apenas dois dos integrantes da formação original de 1968 (sessenta anos de idade cada um), estavam mesmo prestes a se apresentar na Ilha de casos e ocasos raros.

Aconteceu na sexta passada, dia 20, no Floripa Music Hall, uma casa de espetáculos como nunca se viu na cidade, no mesmo lugar onde antes funcionava um supermercado bem xexelento, quase em frente ao Terminal Rita Maria. Recepcionistas e seguranças impecavelmente vestidos, sorriso no rosto, iluminação na medida, decoração de bom gosto em meia dúzia de ambientes, estrutura de primeiro mundo - gente que morou na Inglaterra me garantiu que por lá não existe coisa tão impressionante - e um público refinado (eu chutaria quase duas mil pessoas), confortavelmente acomodado na pista e nos camarotes. A média de idade era alta, mas o clima era de uma nostálgica adolescência dos anos setenta.

Passava um pouco das dez horas quando Dan McCafferty (o cabeludo da inconfundível voz rouca) e o baixista Pete Agnew, mais o atual guitarrista Jimmy Murrison e o baterista Lee Agnew (filho de Pete), subiram ao palco. O som estava quase cristalino, não fosse a voz muito baixa e ligeiramente distorcida. O problema demorou a ser corrigido, porém, pouca gente deve ter notado. Razamanaz foi o primeiro hit a levantar a galera. Com Dream on, pouco depois, tinha gente chorando (eu vi, juro). O simpático vocalista, entre uma música e outra, divertia-se a valer repetindo as palavras que havia decorado em português: "obrigado" e "Floripa".

Ninguém tirava os olhos do palco. E quem sabia cantava junto. Parecia inacreditável que aqueles senhores (ou tiozões, como diria a pirralhada contemporânea), que compuseram a trilha sonora de uma geração inteira, estivessem ali, quase ao alcance dos ouvidos. O hard rock dos veteranos, bem mais evidente ao vivo do que em estúdio, continuou sem pausa pra respiração com Turn on your receiver, This flight tonight e com a divertida My white bicycle. No melhor momento da noite, a casa quase veio abaixo quando Lee fez uma firulinha na bateria e Murrison (guitarrista apenas razoável, de muita pose e pouca técnica), na sua Gibson Les Paul, entrou com os acordes de Love leads to madness, numa versão bem mais lenta, cantada em coro do início ao fim.

Além dos grandes sucessos (Where are you now e Holly roller, inacreditavelmente, ficaram de fora), o grupo tocou canções do disco novo, com lançamento previsto para setembro, e outras menos conhecidas do grande público (duas ou três eu nunca tinha ouvido, me perdoem a ignorância), para delírio dos fãs de carteirinha. Na seqüência, como não poderia deixar de ser, Love hurts justificou o valor do ingresso. Love hurts que, muita gente não sabe, é originalmente dos Everly Brothers, regravada pelo quarteto em 1975.

Pouco antes do bis, quase sem descanso, a pequena multidão, encantada com a performance de Dan McCafferty - um pouco menos cabeludo, porém, com a voz ainda rouca, que em certos momentos lembrava Janis Joplin e, em outros, Bon Scott -, gritava: Nazaré! Nazaré! Nazaré! Tive a nítida impressão de que a Renata Sorrah ia surgir no meio da nuvem de gelo seco, mas foram Dan, Pete, Jimmy e Lee que reapareceram para encerrar com Hair of the dog (teve até gaita-de-foles) e Broken down angel, quando a falha na equalização voltou a aparecer: guitarra muito mais alta que os outros instrumentos, aguda além da conta. E assim como no começo do show, ninguém tava nem aí pra esses detalhes.

Depois de uma hora e meia sem tirar, o Floripa Music Hall, agora já com o palco vazio, transformara-se numa boate, como se nada tivesse acontecido. A não ser, claro, pela expressão de satisfação no rosto de cada admirador da banda, que esteve no lugar certo, na hora certa, muito provavelmente pela última vez na trajetória de quarenta anos do (incrível, inimitável, inesquecível) Nazareth.


Alessandro Dogman
dogman@uol.com.br
Fotos: Alessandro Dogman 

 




    
      

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