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O
fenômeno recente de desenterrar artistas
dos anos 80 nos bares, festas, programas
de televisão, mostra um pouco da nossa
esquizofrenia nostálgica atual. Repentinamente
"descobrimos" como eram legais Trem
da Alegria, Bozo, Wando, Sidney Magal,
A-HA, Madonna e outros neandertais.
O que era lixo no passado, tornou-se
a solução, a ponte de safena da indústria
do entretenimento. Muitas das grandes
bandas da década mantiveram-se à parte
do revival, pelo simples fato
de que nunca foram de fato esquecidas.
A banda Ringleaders prestou, na noite
de sexta-feira, um tributo àqueles que
representaram a parte mais densa, lírica
e irônica da década, tocando, basicamente,
músicas dos dois Smiths mais importantes
do rock: a própria banda The Smiths
e Robert Smith, principal figura do
The Cure. Ao invés de ressuscitar defuntos
musicais que pouco - ou nada - acrescentaram
à música pop, de reproduzir o som de
quem já nasceu com o prazo de validade
vencido, a rapaziada preferiu apresentear
clássicos que quase nunca são tocados
na Ilha. Não por saudosismo barato,
mas por diversão.

O show, realizado no Espaço Fios &
Formas, não lembrou em nada a pasmaceira
proporcionada por algumas bandas cover
que insistem em tocar sempre a mesma
coisa. A banda existe há poucos meses
e é formada por Lincoln (voz), Alfredo
(bateria), Júnior (contrabaixo e voz)
e Leonardo (guitarra, violão e voz).
O trabalho deles é honesto e muito bem
feito. Segundo o baixista Júnior, também
integrante da banda Coda, o grupo se
esforça para deixar a sonoridade das
músicas que interpretam próxima das
versões originais. De fato, um dos aspectos
que mais chama a atenção no som do Ringleaders
é a similaridade dos timbres dos instrumentos,
especialmente do teclado e guitarra.
Mostra um cuidado especial da banda
em reproduzir a estética sonora de Echo
and the Bunnymen, Talking Heads, The
Cure e Smiths. A escolha do repertório
foi muito bem pensada; no meio dos clássicos,
entraram canções menos conhecidas da
carreira solo Morrisey, que eu, particularmente,
pouco conheço.
Do repertório tradicional, só coisas
finas; Heaven knows I'm miserable
now, Panic, There's a
light that never goes out (Smiths),
Just like heaven, Boys don't
cry, Inbetween days (Cure),
And she was (Talking Heads) foram
apenas alguns dos hinos revisitados
pela banda. No final ainda tocaram canções
de grupos britânicos mais novos, como
The Verve e Blur. Terminaram com Killing
an arab, música de Robert Smith
baseada no romance O Estrangeiro,
de Albert Camus, desastradamente interpretada
como mensagem racista, o que causou
sua proibição em alguns lugares.
Em
resumo, foi uma apresentação de rara
competência, que emocionou e divertiu
os fãs do rock britânico oitentista
que foram ao Fios & Formas. A banda
tocou em um palco improvisado (o Espaço
está sendo todo reformado), sem retorno
de som. Foram "na raça" e não tremeram.
O vocalista Lincoln, professor de inglês
que já morou na Inglaterra, fala com
entusiasmo dos poucos shows que já fizeram.
"O público sempre aparece porque é um
tipo de música que não se toca muito
por aí e essas pessoas sentem falta
de ouvir coisas diferentes, aquilo de
que realmente gostam". O fato de tocarem
o mais melancólico e cinzento som de
Manchester e Londres no auge do verão
de uma ilha tropical não é algo anacrônico.
Especialmente neste período da temporada,
em que o altíssimo número de visitantes
pode padronizar o cenário de entretenimento
da cidade, é muito bom fugir do óbvio
e relembrar a parte bacana dos anos
80, para variar.
Visite o site oficial dos Ringleaders:
www.ringleaders.com.br.
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