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Cilinho,
técnico do São Paulo nos anos 80 e emérito
descobridor de talentos, costumava dizer
que basta observar o primeiro toque
na bola, a maneira de correr do garoto
para saber se ele vai ser um craque
ou não. A mesma lógica pode servir para
bandas novas; algumas vezes é possível
perceber logo nos primeiros acordes
o tamanho do sucesso que elas podem
alcançar. Não sou nenhum caça-talentos,
mas quando ouvi a música A rosa, da
banda Vitrolas, senti cheiro de gol.
O segundo disco do grupo, Somos um
só, é recheado de canções que têm
todos os atributos que fazem um hit:
melodias fáceis, arranjos bacanas, harmonias
bem construídas e levadas que fazem
até um tijolo sair dançando. Aquele
som despojado que costuma agradar logo
de cara.
A banda mineira, formada há mais de
15 anos em Governador Valadares, resolveu
pegar a estrada. Morando em São Paulo
há alguns anos, a turma chegou a Florianópolis
há uma semana para fazer duas apresentações
e conhecer a receptividade do público
do Sul às músicas que há tempos já estão
estouradas no leste de Minas. O guitarrista
Berna Dias, na véspera do show de sábado,
27, no Mecenas, não escondia a ansiedade:
"É a primeira vez que tocamos aqui e
queremos subir logo no palco e apresentar
nosso trabalho para um público novo".
Leonardo
Felizardo, baterista, falou da dificuldade
de tocar músicas próprias para um público
que, em sua maior parte, prefere ouvir
o repertório cover, com canções já consagradas.
"Temos que ter calma e cuidado em apresentar
nossas músicas. Como ainda não somos
conhecidos, por enquanto preferimos
privilegiar os clássicos, sem deixar,
é claro, de mostrar nosso trabalho autoral".
No sábado à noite, um bom público compareceu
ao Mecenas. Perto da meia-noite o palco
já estava montado e os instrumentos
(todos de primeira linha, especialmente
o microfrone modelo vintage) prontos
para receber os músicos. Era a hora
de mostrar ao vivo a mesma qualidade
do CD; a tecnologia atual de gravação
pode transformar
até a Paula Toller em uma cantora afinada,
mas em uma apresentação ao vivo a técnica
não pode esconder os defeitos. A realidade
inapelável do instante não deixa o artista
ser algo maior do que pensa que é. E
já no começo do show a banda mostrava
a competência que adquiriu com os anos
de ensaios e gravações; Gustavo 'Loro'
Felizardo (guitarra), Fernando Persiano
(baixo e vocais), Leonardo Felizardo
(bateria); Paulinho Rodriguez (vocais)
e Berna Dias (guitarra e vocais) são
músicos excelentes que demonstram ter
um cuidado especial com todos os detalhes
sonoros e estéticos importantes. O timbre
dos instrumentos, a equalização do som,
afinação, tudo é muito bem feito em
um trabalho que impressiona pelo profissionalismo.
O
repertório transitou entre o visceral
e o dançante, passando pelo rock'n'roll
tradicional, funk, soul, black music,
com destaque para uma versão cheia de
guitarras de Mercedes Benz -
muito diferente da versão à capela de
Janis Joplin - e clássicos absolutos
como Like a rolling stone, de
Bob Dylan, I feel good, de James
Brown e A hard day's night, dos
Beatles. Aí está mais um aspecto positivo
da banda: procura criar arranjos novos,
dando uma dinâmica diferente às versões.
Sua voz e A rosa, do repertório
autoral, agradaram bastante; são exatamente
as duas músicas que têm mais potencial
para tocar bastante nas rádios. A linha
que separa o sucesso do ostracismo é
tênue, mas o Vitrolas, com simplicidade
mineira, parece saber onde pisa.
No final da apresentação, o pessoal
que no começo preferiu ouvir a música
eletrônica do outro ambiente estava
ali, na frente do palco, empolgado e
aplaudindo bastante o som competente
e honesto do grupo. Para fechar o show,
Whisky a go-go, o clássico das
formaturas, a música que muita gente
detesta (incluindo este que escreve
o texto), mas sempre acaba dançando.
Lá pelas quatro da manhã, a rapaziada
terminou o show agradecendo quem ficou
até o fim. Na quarta-feira, 31, a banda
toca no Drakkar (confira agenda das
casas noturnas aqui)
e na sexta-feira passa por Curitiba,
onde termina a turnê pelo Sul do país.
Depois disso, segue viagem, na difícil
tarefa de levar música nova para outros
cantos. Se depender apenas da capacidade
dos cinco músicos, a milhagem dessa
estrada pode ser bastante extensa.
Acesse o site da banda Vitrolas: www.vitrolas.com.br.
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