|
Uma
luz dissonante entra pela janela
quadriculada, desce a parede,
ilumina um São Francisco
distraído e se coloca
no primeiro banco da igreja.
Outros santos acompanhados de
querubins aguardam revelando
algum acontecimento que se dará
lá pelo lado do altar.
Vinda da sacristia, Nossa Senhora
com um Jesus ainda menino coloca
a platéia em silêncio,
aproxima-se do segundo banco
e senta-se ao lado de Madalena.
O menino bate o pé no
compasso do que ainda se fará.
Suavemente,
o amor se instala ao redor de
uma mesa - que a olhos desatentos
pareceria vazia. No fundo da
igreja cavaleiros despem-se
de suas armaduras em discretas
reverências.
No altar e de costas para São
Francisco, agora atento a tudo,
nuances harmoniosas ganham o
espaço, a porta grossa
de uma madeira pesada rebate
as notas e as faz voltar ainda
mais suaves em direção
aos cantores no palco - vai
ver num desejo de retribuir
as carícias sonoras que
recebe.
Quando
tudo acaba e todos vão
embora, Madalena senta-se ao
lado de um Jesus adulto e os
dois juntos reproduzem uma canção
que conta a história
de dois amantes que choram a
dor de uma despedida.
A luz dissonante que entrou
pela janela se dividiu e enquanto
parte dela faz companhia a São
Francisco, que inconsolável
chora a dor cantada por Jesus
e Madalena, outra parte acompanha
feliz o Cantus Firmus e ilumina
um próximo encontro.
|