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Show Banda Larga Cordel de Gilberto Gil mostra o que o baiano tem de mais novo!
14/08/2008
 

Um dos mais representativos cantores do Brasil apresentou um show de alegria e remelexo no Clube Doze.



"... não grude não, não grude, não grude não não grude, não grude não, oxente, onde já se viu! Não grude não, não grude, não grude não, não grude, não grude não, o disgrama, quiuspariu! Não grude não, não grude, não grude não, não grude, não grude não, afasta, vai, sai pra la! Não grude não, não grude, não grude não, não grude, não grude não, basta, deixa eu respirar...

Mais do que político, ativista social, cidadão brasileiro, pai, revolucionário, histórico, vanguardista, agitador... Gilberto Gil é músico nato e baiano.

Surpreendente! Mesmo depois de 45 anos do seu primeiro álbum Gilberto Gil - sua música, sua interpretação, Gil consegue nos maravilhar com um trabalho inusitado e primoroso. Além de figura emblemática da música brasileira, é extremamente simpático e envolvente.

Lá nos idos de 62, o jovem de Ituaçu, interior da Bahia, teve a sua primeira canção gravada, Coça, coça, lacerdinha. A partir daí o baiano aos poucos construiu uma carreira admirável no mundo inteiro. A nova turnê apresenta o álbum Banda Larga Cordel, recém lançado integralmente na internet. Uma proposta bem interessante nos tempos de hoje e que os fãs agradecem, com certeza!

No decorrer das duas horas de show, entre uma música e outra, nas conversas soltas com a platéia, fala sobre o contexto da música, como ele compôs e conta algumas histórias das origens dos ritmos tocados nas composições. Uma verdadeira miscigenação de musicalidade. Entre elas, o xote, samba break, forró, samba de roda, capoeira... Um solo de berimbau impressionou e fez todo mundo aplaudir aos gritos.

Sempre com esse estilo despojado e moderno, o arretado deu um show de alegria, energia e samba no pé. O estilo do cantor misturado com as novas composições evidencia ainda o espírito do tropicalismo, fazendo com que a música popular dê mais um salto na modernidade com concepções artísticas mais alternativas. Realmente os sessenta e seis anos do baiano servem apenas para mostrar o quão jovem ele está e nada mais. Gil acredita na cultura digital e é um dos pioneiros na defesa do Software Livre e da Liberdade Digital. E o novo trabalho enquadra-se nesta ideologia e aborda temas de hoje e amanhã, não esquecendo as coisas da vida e do amor.

Na composição Não Tenho Medo da Morte ele fala sobre a única certeza que temos:

♪ "Não tenho medo da morte, mas sim medo de morrer. Qual seria a diferença você há de perguntar. É que a morte já é depois que eu deixar de respirar. Morrer ainda é aqui na vida, no sol, no ar. Ainda pode haver dor ou vontade de mijar. A morte já é depois já não haverá ninguém como eu aqui agora pensando sobre o além já não haverá o além o além já será então não terei pé nem cabeça nem figado, nem pulmão como poderei ter medo se não terei coração?" ♪

Já em Máquina de Ritmo ele usa termos do mundo virtual:

♪ ... Quem sabe um bom pó de pirlim pim pim possa deletar a dor de quem deixou de lado o tamborim.
Apesar do seu computador
ter samba bom, samba ruim.
Se aperto o botão meu coração
vai me dizer que é samba sim... Colcheias, semi-colcheias. Fusas, semi-fusas sensações. Nos salões das noites cariocas. Novas tecnoilusões. Máquina de Rítmo. Que os pós eternos vão silenciar. Novos anjos do inferno vão por qualquer coisa em seu lugar" ♪

Ali no mezanino observando Gilberto Gil, bem de pertinho, imaginei o quanto ele já batalhou, o quanto de história ele pode contar, relatos surpreendentes e até inesperados. Quantos segredos ele guarda? Pensei na época da ditadura, o seu exílio, as reuniões de boteco no tempo do tropicalismo e até como ministro, mais recente. São indagações que intrigam. Mas que ao voltar para o encanto do show, já são esquecidas.

Na platéia, sentada na primeira fila, estava outra consagrada da música brasileira, Adriana Calcanhotto com aquele seu jeito meigo, sereno, suave... Hora e outra mexia o corpo e cantava junto com Gil e as mais de 600 pessoas ali sentadas nas mesas e em pé no mezanino.

Na música O Oco do Mundo, Gil apresentou uma performance admirável. Com um jogo de luz, ele interpretou a música inteira com um ar de protesto e indignação.

♪ O oco do mundo pré
para trans e meta pós
o oco do mundo a foz
de um rio sem nascente
como um broto sem semente
um raio de sol sem luz
como infecção sem pus
o oco do mundo a sós ♪

Até então, todos estavam sentados e apenas no mezanino o pessoal dançava e curtia mais à vontade, mas faltando pouco para o final Gil convoca: "Vamos dançar!" Foi o suficiente para a maioria levantar, ir até a beirada do palco e dançar até a última música.

Só mais uma palavra: Surpreendente!

Ah! Reforço o recado da produção no começo do show: "Tirem fotos, façam vídeos e postem no site do Gilberto Gil!"


Dani Medeiros
redacao@guiafloripa.com.br 
Fotos: Sarah Castro

 
 

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