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Espetáculo Mãos ao Alto, St. Catarina! inova no formato de comédia no Brasil
12/08/2008
 

Quem foi ao CIC no final de semana presenciou uma diversão diferente com o primeiro espetáculo nonsense já montada no país.

Parece que muita gente saiu do CIC na sexta-feira sem entender nada do que assistiu, mas na realidade a proposta é brincar realmente com o imaginário das pessoas, senão não chamaria comédia nonsense. Apesar de que, pelo que presenciei, muitas pessoas foram ao teatro sem nem ao menos saber o que é o gênero nonsense. Assim fica difícil interpretar a arte ali exposta. Até me atrevo a dizer que muitos estavam ali apenas pelo elenco de nome: Rosi Campos, Sergio Abreu, Tadeu di Pyetro, Mionzinho, Nellise Minelle, Júlio César Moraez.

Na saída, ouvi senhoras dizendo: "Não entendi nada, mas tem gente que gosta, não é?". Outras mais novas replicaram: "Eu gostei, achei bem engraçado, um humor diferente e crítico". Sempre há a tal da dialética, ainda mais em espetáculos que propõe o inusitado.

A peça aborda três quadros de histórias que coincidentemente se unem no final. Tudo é muito rápido, as cenas são ágeis e os atores interpretam muito bem (apenas no final houve um errinho, mas vamos fazer de conta que faz parte do show). O cenário modifica-se sem nem ao menos perceber e é tudo sem noção. Apresenta um conceito visual bem diferente do tradicional gênero de comédia e nos leva a pensar em uma estética cinematográfica.

O texto original Mãos ao Alto, SP! foi escrito há mais de trinta anos por Paulo Goulart e para o teatro foi adaptado por Fernando Ceylão, que também é o diretor da peça. Para a apresentação na capital sofreu uma pequena modificação, passou a se chamar Mãos ao Alto, St. Catarina! que dá um ar de proximidade com o público. Lugares como o Campeche e a Via Expressa fez parte do roteiro. A produção aqui na Ilha é assinada por Débora Alves.

Estão curiosos? Então vou fazer um pequenino resumo da trama: dois bandidos amadores, Nélio e Manco, não querem entrar para o crime, mas a necessidade de um deles mudar de sexo contribui para o começo de tudo. Eles fecham negócio com O Velho, um homem destemido e muito cruel. Saldanha e Rodrigues são dois policiais caricatos que satirizam filmes americanos e mostram uma realidade de policiais corruptos e sacanas. Como relatado em algumas críticas, a peça mistura Pulp Fiction com Corra que a polícia vem aí. Dá para imaginar? Pois, é. Já os outros personagens são Rafy e Flora (há nove meses separados), Reni (tia de Flora) e Mariano (filho mimado de Reni). Aqui a mãe protetora e sempre com uma taça de álcool na mão compra uma "namorada" para o filho de 29 anos e ainda virgem. Ele grita: "Quero ficar pelado, mãe!". Ainda tem a empregada Oswaldina e a prostituta. O interessante é que cada artista interpreta até três personagens e quase ao mesmo tempo. Aparentemente nenhuma das histórias teria nexo uma com a outra, mas a cada cena coisas que pareciam impossíveis aconteceram. E isso faz com que as vidas se misturassem num único bloco. Não vou contar tudo senão perde o brilho. Entretanto... Sim! A comédia é diferente de tudo o que você já viu.

Sobre o Gênero Nonsense

A expressão inglesa nonsense é utilizada em várias animações da televisão fechada, como por exemplo o Adult Swim (aquele programa adulto que passa de madrugada no Cartoon). É uma forma nova de mostrar certas coisas, mas considerar como besteirol o gênero é muito limitado, tentar compreender é mais sem sentido, pois não dá para entender o que intencionalmente é sem noção. Para perceber a mensagem é necessário ir além, pensar com a mente mais aberta e entender as mensagens subliminares de cada cena, isolar toda a realidade e se transportar para o espetáculo.

Na peça, percebi várias críticas sociais e ideológicas, mostrou a favela, tiros, policiais corruptos, casal divorciado e que ainda se amam, um menino de 29 anos que é um bobão e que tem uma mãe louca e bêbada. Evidencia a prostituição, a cadeia, o tráfico de órgãos, o negro, a classe média alta. Até um motoboy com capacete todo preto e com roupa de chuva teve participação na peça. Todos formam elementos que percorreram o imaginário durante o espetáculo e fomentam a reflexão que vai além das piadas e do grotesco.

Pesquisando na internet encontrei o redator Carlos Eduardo Corrales do site Delfos e concordei com a sua idéia: "Para entender o gênero você precisa ter repertório, pois, no humor nonsense nada é dado de mão beijada e boa parte das piadas são referências, sátiras e paródias. Muitos dizem que humor nonsense é coisa de intelectual. Outros acham simplesmente bobo. Sim, meu amigo. Esse gênero é bobo, mas não confunda "ser bobo" com "ser burro", pois para ser bem sucedido no humor nonsense é necessário ser muito inteligente e ter pensamentos críticos".

Mais uma coisinha!

Carlos Corrales, em bate-papo informal, disse algo que vou compartilhar com você, internauta, que talvez como eu não conheça tão bem o tal gênero nonsense:

"Ah, e só um toque, o nonsense não é uma forma nova de humor. Ele já era utilizado desde os bobos da corte na Idade Média e, na era moderna, foi conhecido principalmente por Monty Python e os desenhos dos Looney Tunes. Nos anos 80, vieram os filmes do trio Zucker/Abrahams/Zucker (como o Corra que a Polícia Vem Aí) que acabaram popularizando o gênero e deixando-o superexposto até que ficasse abandonado. Daí vieram Os Simpsons e o sucesso deles resgatou o gênero para épocas mais recentes, embora hoje esteja relegado principalmente a desenhos adultos, como o desenho de Matt Groening, os que passam no Adult Swim ou Uma Família da Pesada."

Valeu o toque, querido!


Dani Medeiros
redacao@guiafloripa.com.br 
Fotos: Divulgação

 
 

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