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Quem foi ao
CIC no final de semana presenciou
uma diversão diferente
com o primeiro espetáculo nonsense
já montada no país.

Parece que muita
gente saiu do CIC na sexta-feira
sem entender nada do que assistiu,
mas na realidade a proposta
é brincar realmente com o imaginário
das pessoas, senão não chamaria
comédia nonsense. Apesar
de que, pelo que presenciei,
muitas pessoas foram ao teatro
sem nem ao menos saber o que
é o gênero nonsense.
Assim fica difícil interpretar
a arte ali exposta. Até me atrevo
a dizer que muitos estavam ali
apenas pelo elenco de nome:
Rosi Campos, Sergio Abreu, Tadeu
di Pyetro, Mionzinho, Nellise
Minelle, Júlio César Moraez.
Na saída, ouvi
senhoras dizendo: "Não entendi
nada, mas tem gente que gosta,
não é?". Outras mais novas replicaram:
"Eu gostei, achei bem engraçado,
um humor diferente e crítico".
Sempre há a tal da dialética,
ainda mais em espetáculos que
propõe o inusitado.
A peça
aborda três quadros de histórias
que coincidentemente se unem
no final. Tudo é muito rápido,
as cenas são ágeis e os atores
interpretam muito bem (apenas
no final houve um errinho, mas
vamos fazer de conta que faz
parte do show). O cenário modifica-se
sem nem ao menos perceber e
é tudo sem noção. Apresenta
um conceito visual bem diferente
do tradicional gênero de comédia
e nos leva a pensar em uma estética
cinematográfica.
O texto original
Mãos ao Alto, SP! foi
escrito há mais de trinta
anos por Paulo Goulart e para
o teatro foi adaptado por Fernando
Ceylão, que também é
o diretor da peça. Para
a apresentação na capital sofreu
uma pequena modificação, passou
a se chamar Mãos ao Alto,
St. Catarina! que dá um
ar de proximidade com o público.
Lugares como o Campeche e a
Via Expressa fez parte do roteiro.
A produção aqui
na Ilha é assinada por
Débora Alves.
Estão
curiosos? Então vou fazer
um pequenino resumo da trama:
dois bandidos amadores, Nélio
e Manco, não querem entrar para
o crime, mas a necessidade de
um deles mudar de sexo contribui
para o começo de tudo. Eles
fecham negócio com O Velho,
um homem destemido e muito cruel.
Saldanha e Rodrigues são dois
policiais caricatos que satirizam
filmes americanos e mostram
uma realidade de policiais corruptos
e sacanas. Como relatado em
algumas críticas, a peça mistura
Pulp Fiction com Corra
que a polícia vem aí. Dá
para imaginar? Pois, é.
Já os outros personagens são
Rafy e Flora (há nove meses
separados), Reni (tia de Flora)
e Mariano (filho mimado de Reni).
Aqui a mãe protetora
e sempre com uma taça
de álcool na mão
compra uma "namorada"
para o filho de 29 anos e ainda
virgem. Ele grita: "Quero
ficar pelado, mãe!".
Ainda tem a empregada Oswaldina
e a prostituta. O interessante
é que cada artista interpreta
até três personagens
e quase ao mesmo tempo. Aparentemente
nenhuma das histórias teria
nexo uma com a outra, mas a
cada cena coisas que pareciam
impossíveis aconteceram. E isso
faz com que as vidas se misturassem
num único bloco. Não
vou contar tudo senão perde
o brilho. Entretanto... Sim!
A comédia é diferente de tudo
o que você já viu.
Sobre o Gênero
Nonsense
A expressão inglesa
nonsense é utilizada
em várias animações da televisão
fechada, como por exemplo o
Adult Swim (aquele programa
adulto que passa de madrugada
no Cartoon). É uma forma
nova de mostrar certas coisas,
mas considerar como besteirol
o gênero é muito limitado, tentar
compreender é mais sem
sentido, pois não dá para entender
o que intencionalmente é sem
noção. Para perceber a mensagem
é necessário ir além, pensar
com a mente mais aberta e entender
as mensagens subliminares de
cada cena, isolar toda a realidade
e se transportar para o espetáculo.
Na peça, percebi
várias críticas sociais e ideológicas,
mostrou a favela, tiros, policiais
corruptos, casal divorciado
e que ainda se amam, um menino
de 29 anos que é um bobão e
que tem uma mãe louca e bêbada.
Evidencia a prostituição, a
cadeia, o tráfico de órgãos,
o negro, a classe média alta.
Até um motoboy com capacete
todo preto e com roupa de chuva
teve participação na peça. Todos
formam elementos que percorreram
o imaginário durante o espetáculo
e fomentam a reflexão
que vai além das piadas
e do grotesco.
Pesquisando na
internet encontrei o redator
Carlos Eduardo Corrales do site
Delfos
e concordei com a sua idéia:
"Para entender o gênero você
precisa ter repertório, pois,
no humor nonsense nada é dado
de mão beijada e boa parte das
piadas são referências, sátiras
e paródias. Muitos dizem que
humor nonsense é coisa de intelectual.
Outros acham simplesmente bobo.
Sim, meu amigo. Esse gênero
é bobo, mas não confunda "ser
bobo" com "ser burro", pois
para ser bem sucedido no humor
nonsense é necessário ser muito
inteligente e ter pensamentos
críticos".
Mais uma coisinha!
Carlos Corrales,
em bate-papo informal, disse
algo que vou compartilhar com
você, internauta, que
talvez como eu não conheça
tão bem o tal gênero
nonsense:
"Ah, e só
um toque, o nonsense
não é uma forma nova de humor.
Ele já era utilizado desde os
bobos da corte na Idade Média
e, na era moderna, foi conhecido
principalmente por Monty
Python e os desenhos dos
Looney Tunes. Nos anos
80, vieram os filmes do trio
Zucker/Abrahams/Zucker
(como o Corra que a Polícia
Vem Aí) que acabaram popularizando
o gênero e deixando-o superexposto
até que ficasse abandonado.
Daí vieram Os Simpsons
e o sucesso deles resgatou
o gênero para épocas mais recentes,
embora hoje esteja relegado
principalmente a desenhos adultos,
como o desenho de Matt Groening,
os que passam no Adult Swim
ou Uma Família da Pesada."
Valeu o toque,
querido!
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