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Só para Loucos: show do Ventania no De Raiz
19/05/2008
 

O De Raiz - Casa de Samba e Reggae fez a noite mais roots do ano, até agora!

Noite estrelada, friozinho gostoso, lua crescente, mês de maio, em frente às dunas da Joaca (uma das praias mais famosas de Floripa)... um lugar que promove cultura e arte. Assim foi a noite do dia 10 no De Raiz - Casa de Samba e Reggae, ambiente perfeito para um show como o do Ventania.

Já eram três e pouco da manhã, o céu continuava lindo, duas bandas locais já animaram a galera: Kingston e Pensamento Rasta. A Kingston, depois do show, passou nas mesas oferecendo seu CD independente por R$ 5,00. Claro que a "raça" deu uma força. Até que o duende de São Thomé das Letras resolve subir e mostrar o porquê de tanto sucesso. Aliás, a casa estava cheia, alguns foram embora, pois não agüentaram até as altas horas do show, mas a maioria ficou ali firme. A casa permaneceu lotada. Por ali, havia vários "chapéus" iguais ao do Ventania, CD superindependente e vários trabalhos de artesanato espalhados em volta da pista de dança.

Preciso abrir aspas para falar do bar De Raiz, do querido Timba, homem de personalidade forte e que não deixa a peteca cair, que acertou mais uma vez. Se faz algum tempo que você não vai ao bar, é a hora de se atualizar... ele está todo reformado. No ar livre, um palco, espaço para dançar e em volta vários "quiosquinhos". E já sei que toda quinta-feira rola um caldinho e comidinhas também. Confira a agenda do Guia Floripa e se programe.

Voltando ao show... subiu ao palco um ser humano barbudo com nome de batismo Wilson, com uma capa, chinelo de São Francisco de Assis (como meu amigo Façanha descreveu), um chapéu de mago e um violão. Na bateria, outro cara de dread e barbão que delirava nas baquetas. E na guitarra, outro cabeludo, mas bem mais "senso comum".

A energia da noite estava bem astral, Ventania deu espaço para um carinha que queria roubar a cena tocando gaita. O cantor com olhar sereno e calmo nem se incomodou. Às vezes ele tinha até que dar uma olhadinha meio assim para o moço... porque afinal de contas ele precisava continuar o show. Mas foi interessante esta participação improvisada. No repertório, músicas do CD Só Para Loucos, uma produção independente, com acordes bem simples. Aliás, a música Só para os Loucos é originalmente uma composição do vocalista da banda Black Zé, banda de rock dos anos 70. Alguém lembra?

A história do Ventania é bacana. Ele começou bem cedo, já na adolescência resolveu ir pra estrada. E o que mais me admira é que ele é o cantor mais famoso entre a galera mais roots. Infelizmente, não vivemos no mundo utópico de outrora, aqui a sociedade é recriminadora, preconceituosa e elitizada. Mas a sociedade alternativa existe. E há vários adeptos dela.

Pelos nomes das músicas dá para se ter uma idéia do que Ventania proclama com suas letras: Cogumelo Azul, Cama de Micróbio, Símbolo da Paz, Dichavando, Maconha, Marasmo, Sonho de um maluco, Só para Loucos, Maluco de BR. As músicas falam do cotidiano de um micróbio de BR. Ok, Ok... pausa para explicar o "que vem a ser isso":

Começamos pelo princípio. Na década de 60 estourou o movimento hippie, várias pessoas proclamando a paz e o amor, a igualdade racial e sexual, a liberdade de expressão e toda utopia de um mundo mais justo. Com o passar do tempo, como todo movimento cultural, ele se transformou. Hoje ainda existem alguns remanescentes do mundo hippie por aí, mas a maioria do pessoal que você encontra pelas feiras e ruas já se intitula como Micróbio de BR, Maluco de estrada ou artesão.

Agora que já sabem o que é Micróbio, voltemos ao show. As músicas relatam realmente sem pudor a vida na BR. Falam das drogas, principalmente da maconha e do cogumelo, da coragem que um maluco tem que ter para sobreviver pelos matos, dos sonhos de liberdade, do desejo de colocar o pé na estrada e sair sem rumo.

Agora, pessoalmente, ir ao show do Ventania é um desejo de longa data... Em 2006, fiz um documentário na disciplina de Realidade sócio-econômica e com ele resolvi mostrar como era a vida de hippie. E neste universo descobri o Ventania. Assim ele se tornou a trilha sonora do meu vídeo. Foi exatamente nesta época que comecei a perceber que realmente a sociedade está carregada de preconceitos e resolvi me abster de tudo isso. E pensar mais nas pessoas como seres humanos do que como bichos ou gente estranha.

Admiro todas as formas de expressão e cultura. Se eu pudesse pegava uma câmera e saía por aí registrando todos os pensamentos dos punks, hippies, patricinhas, pagodeiros, bichos grilos... e tentaria mostrar o outro lado, uma nova realidade para aquelas pessoas que não entendem e só discriminam o diferente.

Gandhi disse: "Não quero que minha casa seja cercada por muros de todos os lados e que as minhas janelas estejam tapadas. Quero que as culturas de todos os povos andem pela minha casa com o máximo de liberdade possível". E é nisso que acredito. Afinal, é mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito. Mas o show do Ventania continua a percorrer todo o Brasil, e seja sempre bem-vindo à Ilha, "seu duende".


Danielle de Medeiros
redacao@guiafloripa.com.br 
Texto e Fotos: Danielle de Medeiros  

 
 

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