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Peça
aborda a história de
três pessoas que buscam
"crescer na vida".
O único problema é
qual o preço disto?
Preciso concordar
com Walter Benjamim quando ele
afirma que o teatro é uma das
únicas formas de arte que mantém
sua aura intacta, já que a aura
depende do hic et nunc.
Sinto isto quando vou ao teatro,
ele não suporta reprodução alguma,
ali pode-se sentir claramente
o processo de criação original
e não uma reprodutibilidade
técnica. Assim foi o último
sábado no CIC com a peça
Vidas Divididas.

Dois grandes nomes
da dramaturgia nacional garantem
a direção e o
texto, que são assinados
por Marcos Paulo e pela portuguesa
Maria Adelaide Amaral, respectivamente.
No elenco, Henri Castelli, Antônia
Fontenelle e Fernanda Vasconcelos.
O choque inicial
dá-se no primeiro ato,
Marisete - interpretada por
Fernanda - levanta da cama só
de calcinha e, naturalmente,
se veste com uma camisa de Nelson.
Neste primeiro contato com o
público há olhares
arregalados de alguns mais conservadores.
O enredo conta
a história de três
pessoas - todos de origem pobre
- que trabalham juntas na mesma
empresa. Para ambientar o leitor,
vamos aos estereótipos
de cada personagem: Nelson é
executivo, egoísta e
só pensa em ser "alguém
na vida" e para conseguir
vale tudo; Marisete é
subsecretária do chefe
de Nelson, se veste de forma
estranha, não tem o português
correto e "fica" com
o Nelson, pelo qual ela é
apaixonadíssima; Gisele,
ou melhor, Gilberto adora ópera
e sonha com a cirurgia que libertará
o seu "eu" daquele
"negócio",
e para isso ela subloca o apartamento
para Nelson e faz shows em boates.
A dialética
que surge no decorrer do espetáculo
nos faz pensar na quantidade
de pessoas que se apropriam
da ideologia de Nelson para
crescer e obter sucesso. Nelson
usa as pessoas como se fossem
objetos descartáveis,
ele termina o relacionamento
com Marisete e, com seu mau
caráter, consegue ser
promovido, ganha um estágio
no exterior e ainda casa-se
com uma mulher rica. Mesmo assim
no final ele não está
feliz. Gisele torna-se amiga
de Marisete e ensina-a a ser
uma mulher elegante, educada
e culta. A trama se passa em
um único cenário,
com pouco efeito de iluminação
e algumas trilhas sonoras de
óperas e músicas
de Roberta Miranda, por exemplo.
O espetáculo
consegue arrancar algumas gargalhadas
da platéia e nos faz
refletir sobre as atitudes que
algumas pessoas adotam para
si como verdade; sendo cruéis
e falsos para conseguirem o
que querem. E você, o
que faria para ter sucesso nesta
vida? Vale a pena passar por
cima de toda a ética
social e bom senso? Fica a polêmica
e a realidade levantada pela
peça.
Asssita os
bastidores do espetáculo na
estréia em outubro:
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