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Meu cardiologista...
7/7/2009
 

... que me espere.

Meu cardiologista que me espere I

Meu cardiologista que me espere. Sentado. Não vou à consulta marcada com quase um ano de antecedência a fim de garantir a vaga. (Meu cardiologista é um médico muito competente. Verdadeira autoridade na sua área.) Não vou e explico por quê. Estou com medo.

Não, não tenho nenhuma cardiopatia grave. Não, ainda. Vou lá todos os anos só para ver como andam a pressão, o colesterol...Essas coisas. Só que, da última vez que estive com ele, depois de medir minha pressão, ele me perguntou se eu andava muito estressada. Pronto. Foi a deixa. Desfiei meu rosário de penas e ele, paciente ou indiferente (Nunca se sabe. Os médicos têm sempre uma expressão imperturbável.) ouviu meu desabafo e fez a gentileza de me lembrar: _ De raiva também se morre, dona Rosangela.

Não me sofri e perguntei: - Com todo o respeito, pois sou do tempo em que padre, médico e professor mereciam todo o nosso respeito e admiração por suas sabedoria, conhecimento, cultura. Eram mesmo autoridades em suas funções. _ O que eu posso fazer, doutor? - E, sem aguardar resposta, acrescentei, uma vez que de médico, poeta, louco (E jornalista) todo o mundo tem um pouco. _ Mudar de ilha, quem sabe? - E prossegui, narrando minhas preocupações, esquecida de que estava no cardiologista e não no psicanalista ou no confessionário, debulhando meus pecados e problemas aos ouvidos do bom padre Albano (Que Deus o tenha em sua santa glória!) Do jeito que as coisas andam por aí, continuei, o senhor há de convir, doutor... Santa Catarina é santa e bela, mas não está dando conta do recado. Para não me estressar, só mesmo se eu arrumasse as malas e fosse me tornar hóspede de Ricardo Montalban, exclamei, referindo-me ao ator mexicano que interpretava o misterioso senhor Roarke, da Ilha da Fantasia, uma série de TV dos anos setenta. Sem arredar os olhos da tela do laptop, nem os dedos do teclado, meu cardiologista sorriu benevolente com a minha fantasia. Tem um sorriso bonito, pensei. Mas é malvado, constatei a seguir.

_ Enquanto não pode fugir para a Ilha da Fantasia, disse-me o meu cardiologista, estendendo a receita que a impressora cuspira com a discrição de quem se desfaz do caroço da azeitona do Martini seco, tome esse comprimidinho duas vezes ao dia.

No balcão da farmácia, engoli em seco e quase morri de raiva ao saber o preço do comprimidinho.

Meu cardiologista que me espere II

Não. Não vou ao cardiologista este ano. De jeito nenhum! Mas não é por medo do preço do remédio que ele possa me receitar. É por causa da raiva que ando sentindo com tudo o que vejo acontecendo à minha volta. No estado em que ando, temo que o meu cardiologista, em vez de receitar um medicamento caro e sem genérico similar, opte por assinar o meu atestado de óbito, assim, só para poupar tempo, uma vez que estou a um passo de uma síncope.

Como não estar? Só seu eu fosse cega, surda, me chamasse Lula, Sarney, Luís Henrique, Dário... Ou, quem sabe, vestisse toga e enfiasse a cabeça debaixo dela. Coberta com todo aquele pano escuro, deve ficar fácil não ver coisa alguma.

É tanta raiva, mas tanta raiva que sinto ímpetos de gritar: _ Nunca antes na história desse país se viu coisa igual! Socorro! Salvem a Amazônia! Protejam as crianças! Não lhes distribuam livros, por favor. Não, a esmo! Não é porque é livro que é literatura, leitura sadia, edificante. Por Deus, eduquem as crianças no caminho do bem, da justiça, da ética, da verdade. A propósito, falando em verdade, não nos mitiguem a verdade! Não mascarem a verdade. Não nos escondam a verdade! Preservem os jornalistas! Grito.

Grito por isso, por aquilo. Grito, pois a cada dia surge um novo motivo para gritar. Grito, mas ninguém escuta. Pior. Ninguém vê, ninguém faz nada! Parece que estamos vivendo a época do salve-se quem puder! Quem não puder, que aguente o repuxo, o balaço, a facada, o descaso, o deboche. Sem tremer.

Não. Não trema! Não trema porque, para simplificar as coisas, aboliram o trema! Não trema porque não é politicamente correto tremer, berrar, sapatear, gritar. Reclamar. Indignar-se. Não trema porque de raiva também se morre!

Para não morrer de raiva ou sufocada de indignação, penso em fugir... Escafeder-me para um paraíso qualquer aqui bem perto, que a conta bancária anda minguada e lá fora as coisas não estão melhores. Isso! Boa idéia, animo-me. Logo, pondero. Evadir-me como? Vivo numa ilha, cercada de carros por todos os lados - direita, esquerda, à frente, atrás... E motoqueiros. Meu Deus! Que bicho para procriar! E voar! Rente ao chão, no meio dos carros. Pela esquerda, pela direita, Zunindo, tirando fininho, lasquinhas, nacos, pedaços dos carros e deles mesmos. De vez em quando, um se esborracha no asfalto. O trânsito para (É sem acento, agora, viste?) um instante. Logo retoma seu fluxo. A vida de todos segue em frente. A minha também. Afinal, vivo numa ilha paradisíaca. Tudo é tão belo. Não preciso fugir. Nem sair de casa. Para quê? Ir aonde? Como?

Quatro da tarde em Floripa...Ninguém se mexe! Não. Não é revista policial nem assalto (Menos mal). São as ruas e avenidas dessa Ilha da Magia que desconhece o truque de multiplicar o espaço. É Floripa com suas veias e artérias entupidas por esse LDL infernal que é o trânsito. Melhor seguir o exemplo do governador e de outros privilegiados. Escapulir de helicóptero ou de barco. É assim que se faz pra sair da ilha. Pois, pela ponte, pela ponte, como sugere Lenine... Pela ponte, é impossível! Porém, reles mortal, não tenho alternativa. Pelo túnel, pela ponte, pela via expressa que impressiona pela lentidão. Mas insisto. Quero me evadir da ilha, dos problemas. Meus, teus, seus, nossos, deles... Não. Deles, não! O problema não é deles. A crise não é deles. A culpa não é deles!

Eu também. Sou inocente. Juro! Tenho o direito de ir e vir para onde eu bem entender, ainda que me locomova mais devagar que uma tartaruga. Vou. Tento ir. Insisto Persisto. Depois de quase uma hora, escapo de morrer sufocada pela ira e pelo gás carbônico no engarrafamento monstro. Chego, enfim, à BR101. Não posso deixar de pensar que talvez seja prudente ligar para o IML e combinar com eles para que mandem o rabecão, sem demora, caso a morte me apanhe em um quilômetro qualquer da Rodovia Litoral Norte Sul. Porém, confio que meu santo é forte e que terei a bênção de não me tornar um número a mais na tenebrosa estatística que contabiliza as vidas ceifadas na rodovia. Sigo em frente.

Não demora muito e tenho - porque ainda não transfundi meu sangue tão vagabundo com o de uma Pterygota Neoptera Blattaria, como me apresentaria um biólogo ou com o de uma barata, conforme traduziria para mim um jornalista - vontade de morrer, chorando ou rindo, pois é patético, cômico, para não dizer trágico, pagar pedágio para transitar pelo canteiro de mais uma obra (inacabada) do governo federal, sem contar com um guia turístico ou espiritual a conduzir-me pelo emaranhado de desvios, a explicar-me como se faz a detonação de rochas, a me fazer notar como eles estão trabalhando para que eu viva melhor, conforme anunciam no cartaz à beira do tortuoso caminho.

Ah! Sinto que vou morrer de raiva! O país, o estado, a cidade, a BR 101, a educação das crianças, os jornalistas, o meu dinheirinho, tudo sumindo, despencando no abismo. Ou não? Estou exagerando. Fantasiando.

PS: Pensando melhor, não vou suspender a consulta. Vá que, numa dessas, eles julguem por bem dispensar o diploma para o exercício da Medicina. Meu rico coraçãozinho na mão de um charlatão? Nem pensar! Ao cardiologista já! E ao otorrinolaringologista, ao oftalmologista! (Enquanto eles ainda existem!) Talvez eu consiga sobreviver e tenha a alegria de ver dias melhores para todos nós. Ou, pelo menos, continue a ter força e voz para continuar gritando.

Rosângela de Almeida Garcia
rosangelapaim@yahoo.com.br
Ilustração: Paulo Roberto Garcia

 
 


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