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... que me
espere.
Meu cardiologista
que me espere I
Meu cardiologista
que me espere. Sentado. Não
vou à consulta marcada com quase
um ano de antecedência a fim
de garantir a vaga. (Meu cardiologista
é um médico muito competente.
Verdadeira autoridade na sua
área.) Não vou e explico por
quê. Estou com medo.
Não, não tenho
nenhuma cardiopatia grave. Não,
ainda. Vou lá todos os anos
só para ver como andam a pressão,
o colesterol...Essas coisas.
Só que, da última vez que estive
com ele, depois de medir minha
pressão, ele me perguntou se
eu andava muito estressada.
Pronto. Foi a deixa. Desfiei
meu rosário de penas e ele,
paciente ou indiferente (Nunca
se sabe. Os médicos têm sempre
uma expressão imperturbável.)
ouviu meu desabafo e fez a gentileza
de me lembrar: _ De raiva também
se morre, dona Rosangela.
Não me sofri e
perguntei: - Com todo o respeito,
pois sou do tempo em que padre,
médico e professor mereciam
todo o nosso respeito e admiração
por suas sabedoria, conhecimento,
cultura. Eram mesmo autoridades
em suas funções. _ O que eu
posso fazer, doutor? - E, sem
aguardar resposta, acrescentei,
uma vez que de médico, poeta,
louco (E jornalista) todo o
mundo tem um pouco. _ Mudar
de ilha, quem sabe? - E prossegui,
narrando minhas preocupações,
esquecida de que estava no cardiologista
e não no psicanalista ou no
confessionário, debulhando meus
pecados e problemas aos ouvidos
do bom padre Albano (Que Deus
o tenha em sua santa glória!)
Do jeito que as coisas andam
por aí, continuei, o senhor
há de convir, doutor... Santa
Catarina é santa e bela, mas
não está dando conta do recado.
Para não me estressar, só mesmo
se eu arrumasse as malas e fosse
me tornar hóspede de Ricardo
Montalban, exclamei, referindo-me
ao ator mexicano que interpretava
o misterioso senhor Roarke,
da Ilha da Fantasia, uma série
de TV dos anos setenta. Sem
arredar os olhos da tela do
laptop, nem os dedos do teclado,
meu cardiologista sorriu benevolente
com a minha fantasia. Tem um
sorriso bonito, pensei. Mas
é malvado, constatei a seguir.
_ Enquanto não
pode fugir para a Ilha da Fantasia,
disse-me o meu cardiologista,
estendendo a receita que a impressora
cuspira com a discrição de quem
se desfaz do caroço da azeitona
do Martini seco, tome esse comprimidinho
duas vezes ao dia.
No balcão da farmácia,
engoli em seco e quase morri
de raiva ao saber o preço do
comprimidinho.

Meu cardiologista
que me espere II
Não. Não vou ao
cardiologista este ano. De jeito
nenhum! Mas não é por medo do
preço do remédio que ele possa
me receitar. É por causa da
raiva que ando sentindo com
tudo o que vejo acontecendo
à minha volta. No estado em
que ando, temo que o meu cardiologista,
em vez de receitar um medicamento
caro e sem genérico similar,
opte por assinar o meu atestado
de óbito, assim, só para poupar
tempo, uma vez que estou a um
passo de uma síncope.
Como não estar?
Só seu eu fosse cega, surda,
me chamasse Lula, Sarney, Luís
Henrique, Dário... Ou, quem
sabe, vestisse toga e enfiasse
a cabeça debaixo dela. Coberta
com todo aquele pano escuro,
deve ficar fácil não ver coisa
alguma.
É tanta raiva,
mas tanta raiva que sinto ímpetos
de gritar: _ Nunca antes na
história desse país se viu coisa
igual! Socorro! Salvem a Amazônia!
Protejam as crianças! Não lhes
distribuam livros, por favor.
Não, a esmo! Não é porque é
livro que é literatura, leitura
sadia, edificante. Por Deus,
eduquem as crianças no caminho
do bem, da justiça, da ética,
da verdade. A propósito, falando
em verdade, não nos mitiguem
a verdade! Não mascarem a verdade.
Não nos escondam a verdade!
Preservem os jornalistas! Grito.
Grito por isso,
por aquilo. Grito, pois a cada
dia surge um novo motivo para
gritar. Grito, mas ninguém escuta.
Pior. Ninguém vê, ninguém faz
nada! Parece que estamos vivendo
a época do salve-se quem puder!
Quem não puder, que aguente
o repuxo, o balaço, a facada,
o descaso, o deboche. Sem tremer.
Não. Não trema!
Não trema porque, para simplificar
as coisas, aboliram o trema!
Não trema porque não é politicamente
correto tremer, berrar, sapatear,
gritar. Reclamar. Indignar-se.
Não trema porque de raiva também
se morre!
Para não morrer
de raiva ou sufocada de indignação,
penso em fugir... Escafeder-me
para um paraíso qualquer aqui
bem perto, que a conta bancária
anda minguada e lá fora as coisas
não estão melhores. Isso! Boa
idéia, animo-me. Logo, pondero.
Evadir-me como? Vivo numa ilha,
cercada de carros por todos
os lados - direita, esquerda,
à frente, atrás... E motoqueiros.
Meu Deus! Que bicho para procriar!
E voar! Rente ao chão, no meio
dos carros. Pela esquerda, pela
direita, Zunindo, tirando fininho,
lasquinhas, nacos, pedaços dos
carros e deles mesmos. De vez
em quando, um se esborracha
no asfalto. O trânsito para
(É sem acento, agora, viste?)
um instante. Logo retoma seu
fluxo. A vida de todos segue
em frente. A minha também. Afinal,
vivo numa ilha paradisíaca.
Tudo é tão belo. Não preciso
fugir. Nem sair de casa. Para
quê? Ir aonde? Como?
Quatro da tarde
em Floripa...Ninguém se mexe!
Não. Não é revista policial
nem assalto (Menos mal). São
as ruas e avenidas dessa Ilha
da Magia que desconhece o truque
de multiplicar o espaço. É Floripa
com suas veias e artérias entupidas
por esse LDL infernal que é
o trânsito. Melhor seguir o
exemplo do governador e de outros
privilegiados. Escapulir de
helicóptero ou de barco. É assim
que se faz pra sair da ilha.
Pois, pela ponte, pela ponte,
como sugere Lenine... Pela ponte,
é impossível! Porém, reles mortal,
não tenho alternativa. Pelo
túnel, pela ponte, pela via
expressa que impressiona pela
lentidão. Mas insisto. Quero
me evadir da ilha, dos problemas.
Meus, teus, seus, nossos, deles...
Não. Deles, não! O problema
não é deles. A crise não é deles.
A culpa não é deles!
Eu também. Sou
inocente. Juro! Tenho o direito
de ir e vir para onde eu bem
entender, ainda que me locomova
mais devagar que uma tartaruga.
Vou. Tento ir. Insisto Persisto.
Depois de quase uma hora, escapo
de morrer sufocada pela ira
e pelo gás carbônico no engarrafamento
monstro. Chego, enfim, à BR101.
Não posso deixar de pensar que
talvez seja prudente ligar para
o IML e combinar com eles para
que mandem o rabecão, sem demora,
caso a morte me apanhe em um
quilômetro qualquer da Rodovia
Litoral Norte Sul. Porém, confio
que meu santo é forte e que
terei a bênção de não me tornar
um número a mais na tenebrosa
estatística que contabiliza
as vidas ceifadas na rodovia.
Sigo em frente.
Não demora muito
e tenho - porque ainda não transfundi
meu sangue tão vagabundo com
o de uma Pterygota Neoptera
Blattaria, como me apresentaria
um biólogo ou com o de uma barata,
conforme traduziria para mim
um jornalista - vontade de morrer,
chorando ou rindo, pois é patético,
cômico, para não dizer trágico,
pagar pedágio para transitar
pelo canteiro de mais uma obra
(inacabada) do governo federal,
sem contar com um guia turístico
ou espiritual a conduzir-me
pelo emaranhado de desvios,
a explicar-me como se faz a
detonação de rochas, a me fazer
notar como eles estão trabalhando
para que eu viva melhor, conforme
anunciam no cartaz à beira do
tortuoso caminho.
Ah! Sinto que
vou morrer de raiva! O país,
o estado, a cidade, a BR 101,
a educação das crianças, os
jornalistas, o meu dinheirinho,
tudo sumindo, despencando no
abismo. Ou não? Estou exagerando.
Fantasiando.
PS: Pensando melhor,
não vou suspender a consulta.
Vá que, numa dessas, eles julguem
por bem dispensar o diploma
para o exercício da Medicina.
Meu rico coraçãozinho na mão
de um charlatão? Nem pensar!
Ao cardiologista já! E ao otorrinolaringologista,
ao oftalmologista! (Enquanto
eles ainda existem!) Talvez
eu consiga sobreviver e tenha
a alegria de ver dias melhores
para todos nós. Ou, pelo menos,
continue a ter força e voz para
continuar gritando.
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