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Os Berbigão: uma aula de rock
27/03/06
 

Sábado, 25 de março. Finalmente, uma noite típica de outono, daquelas em que a gente pode sair, caminhar, se mexer à vontade sem ficar todo suado, ensebado, com enormes manchas no sovaco da camisa. Pra comemorar o fim do verão fui cobrir mais um show para o Guia Floripa: Os Berbigão, no Armazém Vieira. A antiga cachaçaria, prestes a completar vinte e um anos de fundação, estava com todas as mesas ocupadas, mais ou menos às 22h45, quando a banda subiu ao palco. Bem, na verdade não tinha palco, apenas um cantinho no mesmo nível do assoalho, sem cenário, sem grandes luxos, sem nada. Mas logo toda a simplicidade da produção seria esquecida.

Foi com Rolling Stones que os virtuosos irmãos Marcelo (bateria) e Maurício Peixoto (guitarra e voz), o seguro Dani Boy (baixo), o competente Luciano Postal (guitarra e voz) e o impagável Roberto Bez (teclados) abriram o primeiro bloco. Bob Dylan, Elvis Presley e Beatles vieram na seqüência. Don't Let Me Down parecia um playback, de tão perfeita. A versão original de I'm Free (dos Stones, popularizada com o Soup Dragons para a geração mais nova), foi uma das duas grandes surpresas da noite; a outra foi uma canção do "meu amigo" Roberto Carlos: As Curvas da Estrada de Santos. Também não ficaram de fora as boas composições da própria banda (ouça no site: www.osberbigao.com.br), em português, com claríssimas influências de rockabilly, intercaladas no repertório de covers durante os cento e oitenta minutos de show. Ainda antes do intervalo, Roy Orbison (You Got It) deu as caras.

Depois da meia-noite, quase na hora do recomeço, encomendei uma providencial porção de bolinhos de siri pra acompanhar a minha Fanta Uva Light com gelo. Foi aí que notei que as garçonetes do Armazém Vieira são lindas e eficientes, porém, nada simpáticas. Mas os bolinhos são ótimos, recomendo.

Os Berbigão voltaram, então, com mais Beatles (sua especialidade, aparentemente), The Doors (Roadhouse Blues), Temptations (Just My Imagination) e até Eduardo Araújo (Rua Augusta). Can't Buy Me Love foi uma daquelas que pareciam reproduzidas direto do CD, tanto pela cuidadosa execução quanto pela capacidade de imitação de vozes do figuraço Maurício Peixoto. Simpathy For The Devil, mais lenta e sensual, foi um espetáculo à parte. Dispensável mesmo (pro meu gosto, obviamente) foi a seqüência "cinqüentista" de Little Richard, Chuck Berry e Bill Halley; tão deslocada do contexto que provocou a única falha da noite: um desencontro entre baixo, teclado e bateria em Let's Twist Again, do Chubby Checker. Apesar da fatalidade, jovens e coroas, que assistiam a tudo sentadinhos, levantaram suas bundas da cadeira e caíram na dança.

Às duas da madrugada, passados alguns minutos de descanso, o quinteto teve fôlego pra tocar uma versão de I Heard It Through The Grapevine ainda mais longa do que a do Creedence, cheia de solos com o melhor timbre de guitarra que já ouvi na Ilha, e arrematar, em clima de comoção geral, com Hey Jude. Assim, de uma forma agradavelmente catártica, encerrava-se a primeira e bem-vinda noite típica de outono. Aliás, essa combinação d'Os Berbigão com o aconchegante Armazém Vieira é perfeita pra todas as noites da estação. Pensando bem, de todas as estações do ano.


Alessandro Dogman
dogman@uol.com.br
Fotos: Alessandro Dogman e Maurélio Pereira

 

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