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Sábado,
25 de março. Finalmente, uma noite típica
de outono, daquelas em que a gente pode
sair, caminhar, se mexer à vontade sem
ficar todo suado, ensebado, com enormes
manchas no sovaco da camisa. Pra comemorar
o fim do verão fui cobrir mais um show
para o Guia Floripa: Os Berbigão, no
Armazém Vieira. A antiga cachaçaria,
prestes a completar vinte e um anos
de fundação, estava com todas as mesas
ocupadas, mais ou menos às 22h45, quando
a banda subiu ao palco. Bem, na verdade
não tinha palco, apenas um cantinho
no mesmo nível do assoalho, sem cenário,
sem grandes luxos, sem nada. Mas logo
toda a simplicidade da produção seria
esquecida.
Foi com Rolling Stones
que os virtuosos irmãos Marcelo (bateria)
e Maurício Peixoto (guitarra e voz),
o seguro Dani Boy (baixo), o competente
Luciano Postal (guitarra e voz) e o
impagável Roberto Bez (teclados) abriram
o primeiro bloco. Bob Dylan, Elvis Presley
e Beatles vieram na seqüência. Don't
Let Me Down parecia um playback,
de tão perfeita. A versão original de
I'm Free (dos Stones, popularizada
com o Soup Dragons para a geração mais
nova), foi uma das duas grandes surpresas
da noite; a outra foi uma canção do
"meu amigo" Roberto Carlos: As Curvas
da Estrada de Santos. Também não
ficaram de fora as boas composições
da própria banda (ouça no site: www.osberbigao.com.br),
em português, com claríssimas influências
de rockabilly, intercaladas no repertório
de covers durante os cento e oitenta
minutos de show. Ainda antes do intervalo,
Roy Orbison (You Got It) deu
as caras.
Depois da meia-noite,
quase na hora do recomeço, encomendei
uma providencial porção de bolinhos
de siri pra acompanhar a minha Fanta
Uva Light com gelo. Foi aí que notei
que as garçonetes do Armazém Vieira
são lindas e eficientes, porém, nada
simpáticas. Mas os bolinhos são ótimos,
recomendo.
Os
Berbigão voltaram, então, com mais Beatles
(sua especialidade, aparentemente),
The Doors (Roadhouse Blues),
Temptations (Just My Imagination)
e até Eduardo Araújo (Rua Augusta).
Can't Buy Me Love foi uma daquelas
que pareciam reproduzidas direto do
CD, tanto pela cuidadosa execução quanto
pela capacidade de imitação de vozes
do figuraço Maurício Peixoto. Simpathy
For The Devil, mais lenta e sensual,
foi um espetáculo à parte. Dispensável
mesmo (pro meu gosto, obviamente) foi
a seqüência "cinqüentista" de Little
Richard, Chuck Berry e Bill Halley;
tão deslocada do contexto que provocou
a única falha da noite: um desencontro
entre baixo, teclado e bateria em Let's
Twist Again, do Chubby Checker.
Apesar da fatalidade, jovens e coroas,
que assistiam a tudo sentadinhos, levantaram
suas bundas da cadeira e caíram na dança.
Às duas da madrugada,
passados alguns minutos de descanso,
o quinteto teve fôlego pra tocar uma
versão de I Heard It Through The
Grapevine ainda mais longa do que
a do Creedence, cheia de solos com o
melhor timbre de guitarra que já ouvi
na Ilha, e arrematar, em clima de comoção
geral, com Hey Jude. Assim, de
uma forma agradavelmente catártica,
encerrava-se a primeira e bem-vinda
noite típica de outono. Aliás, essa
combinação d'Os Berbigão com o aconchegante
Armazém Vieira é perfeita pra todas
as noites da estação. Pensando bem,
de todas as estações do ano. |