BALANÇO
BRUXÓLICO
"Contou-me a seguinte estória acontecida na Ilha de Santa Catarina
- Ilha dos trezentos engenhos de fabricar farinha de mandioca
- o Sr. José Silveira residente no Canto da Lagoa da Conceição:
que seus antepassados fizeram uma derrubada no Morro da Lagoa
prá mode fazerem uma plantação de mandioca e mihio. Aconteceu
- continuou o narrador - que na margem da roça derrubaram
um grande tanheiro, bem vazado, que ficou caído ao pé de uma
grande árvore que tinha em si um cipó enroscado e que de lá
do alto das ramagens dixava cair um grande seio em forma de
balanço.
Quando começaram a fazer a plantação, sentiram cheiro de fumaça
de querosene, que saía de dentro do vazado do tanheiro, e
também porque ali faziam a comida, notaram que as panelas
amanheciam sujas e as ferramentas atiradas pelo chão, como
se alguém dentro da noite lá aparecesse somente para fazer
malvadezas.
Desconfiados com a situação, passaram a vigiar o lugar e constataram
que dentro da noite a ramagem da árvore que tinha
o balanço, era tomado por luzes de várias formas e tamanhos
e que se movimentavam para direções diversas.
Encorajados por uma mulher benzedeira muito entendida e poderosa
destas coisas dos outros mundos, subiram o morro protegidos
com bentinhos, breves, figas, mostarda, arruda, cisco das
três marés, água benta, vela benta, folhas de guiné, que são
verdadeiras armas contra o poder diabólico destes trasgos
dos infernos.
O que encontraram e viram era horripilante para os olhos humanos.
As árvores tinham na base formas de pés de vários animais,
lamparinas dançavam metamorfoseadas em forma humana; na boca
do tanheiro derrubado estava um bicho em forma de morcego;
no alto da árvore a canga do carro de boi estava pousada,
ao lado de uma lamparina; um pouco abaixo uma coruja com cara
de roda de carro de boi enfeitada com um par de antolhos;
e no centro de tudo, de toda fantasmogênese uma bruxa se balançava
no cipó fantasiada de cabeça de boi com pernas traseiras e
mãos dianteiras, também de boi, e sendo a cabeça uma roda
de carro de boi.
Todas as pedras que ali viviam estavam metamorfoseadas em
atitude de exorcismo.
A coruja que aparece metamorfoseada no meio da árvore, se
destaca como um observador cultural, deste tipo de cultura
que o Povo antigo conduz em sua bagagem tradicional ..."
Franklin Joaquim Cascaes
Esta página é
baseada no universo mágico de Franklin Joaquim Cascaes
Coleção Professora Elizabeth Pavan Cascaes
Museu Universitário
Professor Osvaldo Rodrigues Cabral
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