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Um
"tapa na cara" é o que você
leva ao assistir Cidade de Deus. O filme
é divertido, instrutivo, mas sobretudo
atual e, por isso, um alerta para qual seria a
evolução - para pior, daquilo que
se tornou o tráfico de drogas nas favelas
do Rio de Janeiro.
Não
adianta criticar dizendo que o filme transforma
o traficante em herói, banaliza a violência
e que Meirelles utiliza recursos hollywoodianos.
Cidade de Deus é o melhor filme
brasileiro do ano. Meirelles, juntamente com de
Beto Brant, de O Invasor, parece ter descoberto
o espaço do cinema de ação
e o interesse do público sobre o retrato
do cotidiano violento nas grandes favelas brasileiras.
Na
semana em que Fernandinho Beira-Mar é capa
da Veja, a história do menino Dadinho,
que no filme se transforma no traficante Zé
Pequeno, é atualíssima. Há,
inclusive, uma seqüência em que o bandido
ordena que seus poucos comparsas alfabetizados
leiam todo o jornal, até encontrarem seu
nome. Depois aparece orgulhoso quando uma foto
sua é publicada.
O
romance de Paulo Lins polariza a rivalidade entre
Zé Pequeno (Leandro Firmino da Hora) e
Mané Galinha (o músico Seu Jorge),
que entra para a facção do traficante
Cenoura (Matheus Nachtergaele), rival do primeiro,
a fim de concretizar uma vingança pessoal.
A história no livro é narrada pelo
autor, mas no filme é contada por Buscapé
(Alexandre Rodrigues), menino que também
cresce na favela, mas não vira bandido.
A
trama é rica em detalhes e as imagens são
despejadas freneticamente para relatar a vida
de cada um dos vários personagens. Mesmo
com tantos pormenores, a edição
foi feita de maneira talentosa. Não há
desperdício de seqüências.
E
se o diretor utiliza recursos do cinema estrangeiro,
é ponto positivo. Não se vê
qualquer sinal de som ruim e imagens desajeitas:
normalmente associados ao cinema nacional. Caso
houvesse que apontar um defeito, diria que há
um clichê que poderia ser cortado. Logo
no começo do filme, quando uma gota de
suor quase denuncia um bandido escondido em uma
árvore. O restante é ação
da melhor qualidade e muita violência.
O
elenco, com exceção de Nachtergaele,
é todo formado por atores descobertos em
oficinas, realizadas nas comunidades carentes
utilizadas como locações. Talvez
tenha sido mais um ingrediente para firmar o realismo
do filme.
Cidade de Deus já é um filme-marco
no cinema nacional. É cinema de qualidade,
tem uma história surpreendente e realista,
além de todo o contexto atual que gira
em torno do tema abordado. O investimento já
foi pago com as negociações feitas
em Cannes e a lotação das salas
indica uma ótima bilheteria. Ofereça
a outra face para Cidade de Deus.
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