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Vale
sempre lembrar que se trata de um documentário,
ou seja, não é filme para diversão.
Você irá ao cinema para assistir
73 minutos de entrevistas, com intelectuais de
áreas mais diversificadas, falando dos
seus problemas de visão e das formas como
encaram o fato de "ver o mundo de outra forma."
A
proposta inicial do filme, que é o primeiro
de João Jardim, era trabalhar a falta de
visão. Ele mesmo, com seus 8,5 de miopia,
brincado de tirar e botar os óculos, analisava
como ficavam as coisas fora de foco. Mas as filmagens
renderam um filme sobre o olhar
"Não
é só olhar para o visível,
mas olhar também para o invisível",
como diz o neurologista Oliver Sacks. É
o que faz muito bem o fotógrafo francês
Eugen Bavcar, que é cego. Isso mesmo, um
fotógrafo cego.
Com
audácia, os diretores arriscaram R$ 800
mil reais em um documentário, como pouco
se vê no Brasil. Não estamos acostumados
a ir ao cinema para ver esse tipo de coisa. Como
diz o cineasta Wim Wenders, também entrevistado,
vivemos num mundo com tamanha intensidade de informações
audiovisuais, que paramos de perceber os detalhes.
Ele diz que os filmes de hoje já vêm
prontos. É justamente o que acontece com
o cinema. As pessoas querem somente os filmes
fáceis, sobre os quais não precisam
pensar. É a crítica ao cinema, implícita
no próprio filme.
O
que é maravilhoso em Janela da Alma
é justamente a opinião de cada um,
as mensagens distribuídas ao espectador.
De um desconhecido professor de português
ao excêntrico João Ubaldo Ribeiro,
é incrível como simples conversas
podem render tantas pérolas.
Dos
mais engraçados, Ubaldo trata do "fazer
sexo com ou sem óculos" e Hermeto
Paschoal relata como brincava de "casamento
oculto" (casamento atrás da porta)
em sua infância. Enquanto seus olhos fitavam
uma moça, ele estava olhando para outra,
"capacidade que ninguém mais tinha",
diz o músico.
Foram,
no total, 50 entrevistas. A seleção
das 19 deixou de lado relatos como o do Ministro
do Trabalho na Inglaterra, David Blunkett, que
é cego. Mas segundo os diretores a entrevista
ficou muito formal, desvirtuando do propósito.
Fizeram
muito bem, escolheram as mais interessantes, divertidas
e curiosas, fazendo com que o tempo passasse rapidinho,
como nunca tinha visto em um documentário.
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