Guia Floripa > Lazer > Cinema > Drops 7 > Arquivo

 Bares

 Cinema

 Shows  

 Festas

 Teatro &  Espetáculos

 Serviço


Fpolis, 07/10/2002

Janela da Alma

Título Original: Janela da Alma
País: Brasil
Ano: 2002
Duração: 73 minutos
Documentário / Livre
Diretor
: João Jardim e Walter Carvalho
Elenco:
José Saramago, Wim Wenders, Hermeto Pascoal, Marieta Severo, João Ubaldo Ribeiro, entre outros.


Prévia

Seguindo a Mostra A Memória Compartilhada no cinema do CIC, a sugestão é o documentário Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvallho.

O filme trata do olhar, partindo da máxima de Leonardo da Vinci, que vale ser transcrita: "O olho abraça a beleza do mundo inteiro. É janela do corpo, por onde a alma especula e frui a beleza do mundo. O que há de admirável no olho e que através dele - de um espaço tão reduzido - seja possível a absorção das imagens do universo. De sorte que esse órgão - um entre tantos - é a janela da alma, o espelho do mundo."

A partir daí desenvolvem-se entrevistas com dezenove personalidades com problemas visuais, dos mais variados graus. Desde Hermeto Pascoal, que compensa a falta de visão na sensibilidade musical ao cineasta almemão Wim Wenders, preocupado com as imagens em seus filmes. Destaca-se também o escritor José Saramago, autor de um Ensaio sobre a Cegueira.

Walter Carvalho é o conhecido fotógrafo de Lavoura Arcaica, Abril Despedaçado, dentre tantos outros. Em Janela da Alma, além da fotografia, ele divide a direção com João Jardim. Este assina o roteiro e a montagem.


Crítica


Vale sempre lembrar que se trata de um documentário, ou seja, não é filme para diversão. Você irá ao cinema para assistir 73 minutos de entrevistas, com intelectuais de áreas mais diversificadas, falando dos seus problemas de visão e das formas como encaram o fato de "ver o mundo de outra forma."

A proposta inicial do filme, que é o primeiro de João Jardim, era trabalhar a falta de visão. Ele mesmo, com seus 8,5 de miopia, brincado de tirar e botar os óculos, analisava como ficavam as coisas fora de foco. Mas as filmagens renderam um filme sobre o olhar

"Não é só olhar para o visível, mas olhar também para o invisível", como diz o neurologista Oliver Sacks. É o que faz muito bem o fotógrafo francês Eugen Bavcar, que é cego. Isso mesmo, um fotógrafo cego.

Com audácia, os diretores arriscaram R$ 800 mil reais em um documentário, como pouco se vê no Brasil. Não estamos acostumados a ir ao cinema para ver esse tipo de coisa. Como diz o cineasta Wim Wenders, também entrevistado, vivemos num mundo com tamanha intensidade de informações audiovisuais, que paramos de perceber os detalhes. Ele diz que os filmes de hoje já vêm prontos. É justamente o que acontece com o cinema. As pessoas querem somente os filmes fáceis, sobre os quais não precisam pensar. É a crítica ao cinema, implícita no próprio filme.

O que é maravilhoso em Janela da Alma é justamente a opinião de cada um, as mensagens distribuídas ao espectador. De um desconhecido professor de português ao excêntrico João Ubaldo Ribeiro, é incrível como simples conversas podem render tantas pérolas.

Dos mais engraçados, Ubaldo trata do "fazer sexo com ou sem óculos" e Hermeto Paschoal relata como brincava de "casamento oculto" (casamento atrás da porta) em sua infância. Enquanto seus olhos fitavam uma moça, ele estava olhando para outra, "capacidade que ninguém mais tinha", diz o músico.

Foram, no total, 50 entrevistas. A seleção das 19 deixou de lado relatos como o do Ministro do Trabalho na Inglaterra, David Blunkett, que é cego. Mas segundo os diretores a entrevista ficou muito formal, desvirtuando do propósito.

Fizeram muito bem, escolheram as mais interessantes, divertidas e curiosas, fazendo com que o tempo passasse rapidinho, como nunca tinha visto em um documentário.



 

   

Copyright© 2002 Guia Floripa
Todos os direitos reservados
Fale conosco

Guia Floripa