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O
ano 2054 não está muito longe. Lá,
os leitores de retina - atualmente em fase de
testes em alguns aeroportos, após os atentados
terroristas nos EUA - estão por toda parte.
As pessoas são identificadas a cada passo.
Ao entrarem nas lojas, são atendidas pelos
anúncios virtuais, que falam seu nome e
suas preferências em compras. Os automóveis
deslizam em incríveis cascatas ao longo
dos edifícios e param exatamente na porta
(ou seria janela?) de sua casa, lá você
ascende as luzes e escuta música através
de um simples comando de voz.
Mas
nessa Washington D.C. cheia de confortos tecnológicos,
para escapar da polícia, não há
outra saída senão trocar os olhos.
E se você é um infrator não
adianta fugir de carro, pois ele o levará
para a polícia.
É
nesse mundo criado pelo escritor Philip K. Dick
e adaptado por Steven Spielberg para o cinema,
que vive o policial John Anderton (Tom Cruise),
chefe da Pré-Crime, uma unidade policial
que prende os criminosos antes mesmo de cometerem
seus delitos. A
idéia, que à primeira vista parece
absurda, funciona com uma mistura de tecnologia
e poderes sobrenaturais vindos de humanos. São
os "precogs", gêmeos videntes,
mantidos em uma espécie de líquido
nutritivo, que têm suas previsões
sobre os crimes captadas e transformadas em imagens.
É com as cenas do crime que Anderton faz
uma rápida investigação para
descobrir o local do futuro homicídio.
As evidências se completam com os nomes
do vilão e da vítima, gravados em
bolas de madeira, cujas cores fazem saber se o
crime é premeditado ou não.
O
filme é muitíssimo interessante,
principalmente pela discussão que pode
ser feita a partir dessa questão ética,
de uma polícia que prende e neutraliza
pessoas antes mesmo de cometerem seus delitos.
Nessa vida simplesmente não há uma
segunda chance, é como se o destino fosse
um só e não houvesse como impedir
determinados acontecimentos. Os paradoxos são
evidentes, como na cena em que o dono da Pré-Crime,
Lamar Burgess (o ator sueco Max Von Sydow), questiona
a inexistência de cura para um simples resfriado.
O
início do filme é pura ficção
científica, mas a certa altura passa a
uma original trama de ação e suspense.
Spielberg soube dosar cada ingrediente para não
cansar a platéia. Os efeitos especiais
também são na medida certa, o diretor
faz um filme, não uma vitrine de efeitos.
Cruise,
que passou definitivamente a produzir os filmes
em que atua, parece ter gostado de brincar com
o tempo e com o fato de ficar deformado, o que
também acontecia em Vanilla Sky.
Aliás, se você prestar atenção
verá a atriz daquele filme, Cameron Diaz,
e seu diretor, Cameron Crowe, na cena em que Anderton
foge de metrô. Os filmes foram feitos um
após o outro, e os "astros" do
outro resolveram fazer uma "ponta" neste.
O
novo filme de Spielberg é sem dúvida
um dos melhores dos últimos tempos. Principalmente
por utilizar todo o tipo de tecnologia em captação
e edição de imagens, mas sem atrapalhar
a atuação dos atores. O trabalho
certamente será lembrado em discussões
boêmias - ou mesmo doutrinárias -
sobre o controle do Estado sobre seus "tutelados",
pois mostra - e assusta - como seria um mundo
sem crimes, mas também sem privacidade.
Dizem
que o Spielberg pós -AI - Inteligência
Artificial, passa por uma fase kubrickiana,
influenciado pelo mestre que dirigiu 2001 -
Uma odisséia no espaço e Laranja
Mecânica. Pode até ser. Mas é
exagero dizer o Minority Report é
qualquer obra-prima, ou fazer comparações
entre os diretores que, cada um ao seu tempo,
representam o que há de melhor em seu estilo.
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