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Fábio
Barreto certamente teve muito trabalho ao adaptar
a vida de Jacobina Mauer para o cinema. A trama
envolve sexualidade e fanatismo religioso, elementos
que podem fazer uma história memorável,
mas que exigem um cuidado imenso para não
cair no absurdo.
A
película é precedida por um pequeno
documentário sobre os colonizadores alemães
no Rio Grande do Sul. Nele há o relato
de descendentes da heroína. O Morro do
Ferrabrás, onde viviam os Mucker (seita
criada por Jacobina) é mostrado como um
símbolo da liberdade, hoje utilizado por
praticantes de vôo-livre.
O
início do filme é do tipo O Quatrilho,
as lembranças vêem à tona
quando aparece Alexandre Paternost, que no primeiro
filme fazia o sisudo marido de Patrícia
Pillar. Agora ele faz o jovem Mauer, curandeiro
que se casa com Jacobina.
A
partir de determinado momento, a heroína,
além de ter intensos e longos desmaios,
passa a falar com Jesus. Tais conversas, no entanto,
são pobres em efeitos especiais, o que
conta negativamente em um filme bem orçado
para os padrões brasileiros.
A
partir do milagre de Jacobina, a história
toma forma, mas se torna logo cansativa. Parece
que foi feito às pressas, que os fatos
poderiam ser mais bem conectados. É de
uma hora para outra que a heroína, que
antes defendia a paz, passa a pregar o fim do
mundo, incitando seus seguidores para uma batalha
contra o exército brasileiro. O tipo de
história talvez exigisse outro ritmo. A
impressão ao sair do cinema foi de ter
assistido a um resumo dos fatos.
Insuportável
é a cantoria entoada por Jacobina, que
vira uma espécie de hino entre os Mucker.
Outra música para variar um pouco iria
bem. Molesto também é Jacó
Mula, o personagem de Leon Góes. É
uma espécie de débil-mental, aparece
de mais, fica repetitivo.
O
tom messiânico da personagem principal foi
mantido tanto com a imensa cabeleira loira, como
com a posterior careca. Letícia Spiller
passou muito bem o equilíbrio e o desequilíbrio
entre o espírito e a carne. Lasciva e ao
mesmo tempo santa.
Caco
Ciocler, que fez o ótimo árabe de
Avassaladoras, é o destaque do filme.
O ator, que faz o delegado John é, sem
dúvida o melhor ator do elenco. Antônio
Calloni, consagrado ator de novelas, brilha também
como o pastor da cidade. Já Thiago Lacerda,
apesar de ser o galã, fica preterido pelos
outros atores.
É
uma pena que o filme em geral não seja
dos melhores. Fábio Barreto talvez tenha
incorrido no erro de tentar repetir o êxito
conseguido em O Quatrilho. Mas o tema gauchesco
da vez, por ser muito mais complexo, exigia um
trabalho além do que foi apresentado.
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