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Fpolis, 30/08/2002

A Paixão de Jacobina

Título Original: A Paixão de Jacobina
País: Brasil
Ano: 2002
Duração: 100 minutos
Drama / 12 anos
Diretor
: Fábio Barreto
Elenco:
Letícia Spiller, Thiago Lacerda, Alexandre Paternost, Antônio Calloni, Caco Ciocler, Felipe Camargo e Talita Castro.
Site Oficial


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Em algumas das colunas anteriores, dizíamos que este era o ano do cinema no Brasil. Não para chegar ao número de ingressos vendidos em Dona Flor e Seus Dois Maridos, em 1976 (11 milhões), mas pelo número de produções.
O audiovisual brasileiro é conhecido pelos importantes prêmios que recebe na publicidade, o que ainda não acontece no cinema. Mas se as produções continuarem como estão isso será uma questão de tempo.

Um exemplo do que acontece com o cinema nacional são as estréias neste final de semana. No sul do país temos A Paixão de Jacobina, em outros lugares Cidade de Deus, o também esperadíssimo filme de Fernando Meirelles. É uma pena que não tenhamos salas suficientes para a estréia dos dois.

Assim com Lavoura Arcaica e Abril Despedaçado, o mais recente trabalho de Fábio Barreto (O Quatrilho e Bela Donna) é uma tragédia baseada em romance. Desta vez o livro de Luis Antônio de Assis Brasil, Videiras de Cristal, foi adaptado para o cinema.

A história baseada em fatos reais se passa no Rio Grande do Sul, em 1871. Jacobina Maurer (Letícia Spiller) é uma jovem curandeira que passa a reunir adeptos em uma seita, a dos Mucker. Sua pregação, de igualdade entre os homens e a prática do ósculo entre os seguidores, passa a chamar a atenção das autoridades militares. Após o dia de Pentecostes, quando uma profecia de Jacobina de fato acontece, a seita passa a ser objeto de extermínio.

O elenco reúne atores consagrados em telenovelas, como a protagonista, além de Thiago Lacerda (Franz, paixão antiga da protagonista), Felipe Camargo (Coronel Genuíno) e Antônio Calloni (o pastor Boeber). Outros, nem tão conhecidos, como Alexandre Paternost (Maurer, curandeiro, marido de Jacobina), que fez parte de O Quatrilho e Leon Góes (Jacó Mula, um adorador de Jacobina), ator de teatro, esteve em cartaz com Pinóchio recentemente.

As filmagens foram em clima de super produção. O orçamento altíssimo possibilitou, inclusive, que nas cenas de batalhas as cenas fossem captadas por mais de uma câmera. O mesmo acontece com a distribuição, feita pela gigante Playarte. Vale dar uma olhada na página oficial, aos moldes das grandes produções hollywoodianas.

Estrategicamente ou não, o filme estréia aqui sem grandes concorrentes estrangeiros e deverá ser o filme mais assistido do final de semana. Salve o cinema brasileiro!


Crítica

Fábio Barreto certamente teve muito trabalho ao adaptar a vida de Jacobina Mauer para o cinema. A trama envolve sexualidade e fanatismo religioso, elementos que podem fazer uma história memorável, mas que exigem um cuidado imenso para não cair no absurdo.

A película é precedida por um pequeno documentário sobre os colonizadores alemães no Rio Grande do Sul. Nele há o relato de descendentes da heroína. O Morro do Ferrabrás, onde viviam os Mucker (seita criada por Jacobina) é mostrado como um símbolo da liberdade, hoje utilizado por praticantes de vôo-livre.

O início do filme é do tipo O Quatrilho, as lembranças vêem à tona quando aparece Alexandre Paternost, que no primeiro filme fazia o sisudo marido de Patrícia Pillar. Agora ele faz o jovem Mauer, curandeiro que se casa com Jacobina.

A partir de determinado momento, a heroína, além de ter intensos e longos desmaios, passa a falar com Jesus. Tais conversas, no entanto, são pobres em efeitos especiais, o que conta negativamente em um filme bem orçado para os padrões brasileiros.

A partir do milagre de Jacobina, a história toma forma, mas se torna logo cansativa. Parece que foi feito às pressas, que os fatos poderiam ser mais bem conectados. É de uma hora para outra que a heroína, que antes defendia a paz, passa a pregar o fim do mundo, incitando seus seguidores para uma batalha contra o exército brasileiro. O tipo de história talvez exigisse outro ritmo. A impressão ao sair do cinema foi de ter assistido a um resumo dos fatos.

Insuportável é a cantoria entoada por Jacobina, que vira uma espécie de hino entre os Mucker. Outra música para variar um pouco iria bem. Molesto também é Jacó Mula, o personagem de Leon Góes. É uma espécie de débil-mental, aparece de mais, fica repetitivo.

O tom messiânico da personagem principal foi mantido tanto com a imensa cabeleira loira, como com a posterior careca. Letícia Spiller passou muito bem o equilíbrio e o desequilíbrio entre o espírito e a carne. Lasciva e ao mesmo tempo santa.

Caco Ciocler, que fez o ótimo árabe de Avassaladoras, é o destaque do filme. O ator, que faz o delegado John é, sem dúvida o melhor ator do elenco. Antônio Calloni, consagrado ator de novelas, brilha também como o pastor da cidade. Já Thiago Lacerda, apesar de ser o galã, fica preterido pelos outros atores.

É uma pena que o filme em geral não seja dos melhores. Fábio Barreto talvez tenha incorrido no erro de tentar repetir o êxito conseguido em O Quatrilho. Mas o tema gauchesco da vez, por ser muito mais complexo, exigia um trabalho além do que foi apresentado.



 

   

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