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Fpolis, 25/09/2002

Viva São João!

Título Original: Viva São João!
País: Brasil
Ano: 2002
Duração: 82 minutos
Documentário / Livre
Diretor
: Andrucha Waddington
Elenco:
Gilberto Gil.
Site Oficial


Prévia

A prévia desta vez não será sobre um filme do final de semana, mas uma estréia durante a semana. Viva São João! entra em cartaz na terça-feira, no cinema do CIC. Há motivos de sobra para ser visto.

É um "road movie", ou seja, um filme "de estrada", feito em forma de viagem, com imagens captadas em diversos locais. A estrada, no caso, foi substituída pelos ares, e o grupo viajou em um avião Bandeirantes para dar conta de tantas festas nos 15 dias em que elas se sucedem.

O cenário é o Nordeste brasileiro e o tema central são as festas juninas. A partir daí o diretor Andrucha Waddington trata das vestimentas, comidas, religiosidade e principalmente das canções que permeiam as festividades.

Waddington é o diretor de Eu, Tu, Eles, sucesso com Regina Casé em 2000. Foi buscando locações para aquele filme que nasceu a idéia do filme atual. Waddington é carioca e tinha uma visão completamente diferente das festas de junho: "Eu cresci tendo uma idéia farsesca, idealizada do que é a festa verdadeira. Nós do Sudeste nos fantasiamos de caipira, numa caricatura da vida rural. O caipira veste a sua melhor roupa. É a festa mais importante do ano, talvez até mais importante que o Natal."

Gilberto Gil é co-produtor e personagem principal. O cantor, cuja música Esperando na janela foi sucesso em Eu, Tu, Eles, passou o tempo de filmagem se apresentando durante a noite e filmando de dia.

Viva São João! é um documentário musical em forma de filme. É didático, pois trata de folclore, mostrando desde as festas mais tradicionais até as mais modernas, mas também tem uma história, cujo fio condutor é a música.

O filme foi premiado no festival de Recife - melhor trilha sonora e documentário. A qualidade do som, aliás, é o ponto mais elogiado. As ilustrações desta coluna podem dar uma idéia que a fotografia de Marcelo Durst (Os Matadores, de Beto Brant) é também um ponto alto do filme.

Há diversos convidados como Elba Ramalho, Alceu Valença, Sivuca e Alexandre Pires.

As canções de Luiz Gonzaga não poderiam faltar num filme como esse. Há menção especial ao maior músico do nordeste, em filmagem feita em Exu, cidade onde foi criado.

Viva São João! é cinema-cultura. Talvez uma espécie de Buena Vista Social Club brasileiro. É um bom programa para a próxima semana e para o final dela.


Crítica

Quem vai ao cinema achando que se trata de um documentário sobre as festas juninas tem uma surpresa. O filme de Andrucha Wadington é, na verdade, um retrato do Nordeste brasileiro, cantado por Gilberto Gil em homenagem a Luiz Gonzaga.

A marca deixada pelo Rei do Baião é música predominante no filme. As festas juninas são os acontecimentos nos quais toda essa musicalidade é trazida à tona e, a partir daí, mostra-se a culinária e a religiosidade das festas de junho.

Por parte do diretor, parece ter havido uma dualidade, uma indecisão entre fazer um documentário sobre as festas juninas ou retratar preponderante a vida de Luiz Gonzaga. A mistura rendeu um resultado saboroso, a diversidade de informações traz um enredo que pouco se vê em documentários, o instrutivo se torna divertido, tudo temperado com músicas e entrevistas.

No início Waddington leva a irmã de Gonzaga de volta a Exu, cidade natal da família. No caminho ela conta histórias sobre o início da carreira do irmão, numa conversa completamente a vontade, nem parece que tudo estava sendo documentado. De quebra, enquanto eles cantam ao chegar na cidade, você vê parte da história de Luiz Gonzaga retratada em um muro.

Viva São João! é uma espécie de inventário do que deixou Luiz Gonzaga ao Brasil. Essa "documentação" é feita por Gilberto Gil, parceiro de Waddington já em Eu, Tu, Eles, que agora é o personagem principal, uma espécie de narrador da história.

Dominguinhos e outros menos conhecidos como Targino Gondin, são entrevistados lá no sertão em meio a belas imagens do pôr-do-sol. Os comentários mais interessantes são os de Sivuca. Ele diz que hoje é bonito falar em "forro pé de serra", mas nos anos 40 o forró era profano. E depois é mostrado o trem do forró, em Campina Grande, onde as pessoas dançam enfileiradas dentro do veículo em movimento.

Há também o caráter histórico-político, implícito ao discutir a ida de Gonzaga do Nordeste ao Rio de Janeiro, o mesmo que aconteceu com Gil anos depois. O paralelo é traçado com imagens de um show no Rio, com participação de Elba Ramalho e outros artistas.

A parte mais rica do filme é a "guerra das espadas", um duelo com foguetes caseiros. Além de mostrar a confecção dos artefatos, há opiniões de gente que participa da brincadeira e diz que "você leva no máximo uma queimadura leve, de terceiro grau é difícil..."

Outro ponto a destacar é a entrevista com Dona Luzia, uma sertaneja que serviu de inspiração para o personagem de Regina Casé, a Darlene de Eu, Tu, Eles. É uma nordestina com a pexera na mão, que diz não abrir mão de seu sossego, prefere cuidar dos cabritos... Quando perguntada sobre a época de São João: aí é diferente, ela deixa a tranqüilidade de lado.



 

   

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