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Com
mais de 20 trilhas repletas de visuais estonteantes,
Florianópolis é uma excelente opção para a prática
do ciclismo de montanha, um esporte que atrai tanto
aventureiros radicais como esportistas de final de
semana.
O
suor gruda a camiseta ao corpo, escorre pelo rosto
e pelos braços que trepidam com os solavancos. Os
músculos das pernas parecem explodir enquanto sobem
e descem, sobem e descem, sobem e descem num ritmo
forte, acompanhado pela respiração ofegante. Cravados
na trilha irregular que sobe serpenteando o morro,
os olhos apertam-se com a luminosidade e o pó. Procuram
pedregulhos, gretas ou qualquer acidente do terreno
que possa dificultar ainda mais a subida, e vez por
outra percorrem o panorama que começa a se descortinar
por entre as árvores.
Finalmente,
o topo. A brisa fresca que vem do mar, a sombra do
guarapuvu, o visual. Poucos esportes propiciam esta
deliciosa mudança de sensações e cenários tão rapidamente
como o ciclismo de montanha, ou mountain bike. Quem
experimenta, não abandona mais. No espaço de uma hora,
consegue-se passar do exercício físico puxado, depurador,
à plácida contemplação de quadros da natureza não
acessíveis à maioria dos mortais. E daí à adrenalina
energética das descidas, velocidade, e uma dose certa
de perigo.
A
Ilha de Santa Catarina - um pedacinho de paraíso com
451 Km2, 42 praias e duas lagoas emolduradas pelo
verde da Mata Atlântica - possui uma geografia privilegiada.
Ela não somente acaricia os olhos como favorece a
prática de dezenas de esportes, principalmente os
radicais: surf e mergulho no mar, asa-delta e parapente
no céu, mountain bike na terra.
Quem
opta pelo mountain bike, nunca se arrepende. O relevo
acidentado da ilha, a variedade de trilhas disponíveis
e a beleza dos cenários transforma a aventura movida
a pedais num espetáculo raro. E o que é mais importante:
acessível a praticamente qualquer pessoa. Basta possuir
um razoável preparo físico, uma boa bicicleta e, é
lógico, gostar de natureza e emoções fortes.
A
Trilha Florestinha
A
Costa da Lagoa, pequena comunidade de pescadores ligada
ao resto de Florianópolis apenas por uma linha de
barco-ônibus e por picadas que atravessam a Mata Atlântica,
é o fim - ou o começo - da Trilha da Florestinha.
Ela tem apenas 4,5 Km, não é a maior nem a mais difícil
da ilha. É simplesmente a mais bela. Num de seus pontos
de descanso a rampa de asa delta impressiona
a vista da Lagoa da Conceição, uma das mais conhecidas
e apreciadas de Florianópolis. Isto torna o roteiro
ideal para turistas e para quem não dispõe de muito
tempo para dedicar ao esporte. Mas não se engane!
É uma trilha de montanha, e quem encarar vai ter que
suar a camiseta antes de alimentar seu espírito com
as vistas espetaculares, o cheiro de natureza pura,
os sons da mata.
Começo
Escaldante
O
sábado que escolhemos para a aventura não podia ser
mais escaldante. São 4 horas da tarde e o termômetro
está acima dos 30 graus quando estacionamos em frente
ao Hotel da Lagoa, na parte mais alta da rodovia que
liga o centro de Florianópolis às praias da costa
leste, como a Mole e a Joaquina. É hora de retirar
as bikes do porta-malas do carro. A montagem é feita
com cuidado. Antes de iniciar a aventura, os testes.
Freio? Ok. Câmbio? Ok. Parafusos apertados, óleo na
corrente, água no cantil, capacete na cabeça, acessórios...
e lá vamos nós.
Ninguém
do grupo é calouro nesta modalidade ecológica de ciclismo.
Tem até um campeão - Eduardo de Souza - que por duas
vezes levou o título catarinense da categoria. Ele
tem a bike mais incrementada, importada dos Estados
Unidos por 2 mil dólares há seis meses.
Pedalar
é Preciso
Deixamos
para trás o asfalto e começamos o trajeto. A primeira
parte é também a mais difícil. Por isso, aí vai um
conselho: não desista assim que se deparar com a ladeira
de cascalho, longa e reta, bem nos fundos do hotel.
Vez ou outra, o arranque vira patinada. Parece que
estamos sentados numa ergométrica, pedalando sem sair
do lugar. A diferença é o ar puro, o cenário maravilhoso
e a impossibilidade de parar de pedalar sem cair.
Mas como ninguém no grupo tem ambições radicais, nem
deseja voar contra o relógio, pisamos no pedal do
sonho ao cruzar morros, riachos e poças dágua,
curtindo cada detalhe que encontramos pelo caminho.
A paisagem começa a mudar assim que iniciamos a subida.
Olhando por sobre o ombro dá para ver, distante, a
paisagem urbana da Avenida Beira-mar Norte de um lado,
e as pacatas casinhas coloniais debruçadas sobre a
lagoa de outro.
Prazer
e Suor
A
estrutura de câmbio destas bicicletas, com até 24
marchas, permite que uma pessoa com bom preparo físico
suba rampas de radical inclinação. Lentamente, lutando
contra o calor e o cascalho irregular, seguimos os
mais experientes pela ladeira que parece atingir o
céu. Vergonha e orgulho nos impedem de desistir, parar
e carregar a bicicleta nas costas. Prosseguimos, suando
e ofegando, rumo ao topo do morro.
Depois
de pedalar 20 minutos ladeira acima, chegamos a uma
planície no meio da rampa. Pela esquerda, chama atenção
uma seqüência de pinheiros que contrastam com a vegetação
nativa da região. Ao fundo, a arquitetura colonial
açoriana marca presença numa casinha branca, e a fumaça
da chaminé avisa que tem gente em casa. Paramos para
matar a sede e trocar idéias.
Uma
vez refeitos, enchemo-nos de ânimo e voltamos a pedalar,
pois ainda temos muita subida pela frente. A mata
verde aproxima-se cada vez mais, enquanto a trilha
vai ficando estreita. É hora de fazer fila indiana.
E vem a primeira bifurcação. Que direção tomar? Ir
reto ou virar à direita? A dúvida aumenta a emoção.
Cedo meu lugar na ponta aos veteranos e acompanho
o fluxo. Não há nada de cavalheiresco nesta atitude.
É a saída mais sensata para quem não conhece o caminho.
Túneis
Naturais
O
fluxo entra na trilha da direita. Mais uma rampa vertical
cresce a nossa frente. A estradinha não tem mais cascalho,
mas buracos e valas feitos pela força das chuvas,
ou pelas rodas de veículos off-road. Entramos em túneis
naturais feitos por árvores centenárias com mais de
20 metros. Elas juntam seus ramos sobre nossas cabeças,
escondendo o sol.
Se
por um lado estes túneis nos impedem de curtir o visual
panorâmico, por outro aliviam a temperatura e permitem
que a natureza se revele em detalhes. Passeios de
borboletas, árvores caídas vencidas pela idade, bromélias
penduradas confortavelmente no alto de ipês. Coloridas
margaridas enfeitam a trilha e um riacho puro e tranqüilo
corta nosso caminho.
Um
clarão no meio da mata sinaliza outra bifurcação e
nova parada. Incógnitas reaparecem em duas direções.
A alternativa mais estreita é a continuação da Trilha
da Florestinha, que vai até a Costa da Lagoa. De repente,
compreendemos por que o caminho tem este nome: o trecho
é cerrado, não há sinal de sol lá dentro. Esta parte
da aventura exige cuidado máximo. A partir dali é
muito importante manter o equilíbrio em baixa velocidade,
ultrapassando pedras, valas, troncos de árvore. Para
quem não sabe, a prudência recomenda transportar a
bicicleta nas costas. É melhor do que um acidente.
A
Rampa de Asa-Delta
A
outra trilha, menos selvagem, leva à rampa da asa
delta. O pôr-do-sol promete, por isso escolhemos este
caminho e logo somos presenteados com o visual mais
fantástico da trilha. Por sobre a rampa de onde partem
os homens-pássaros, é possível visualizar num ângulo
de mais de 180 graus toda a costa leste e a parte
sul da Ilha de Santa Catarina. A Lagoa da Conceição
na frente, rodeada pelas praias da Joaquina, Mole,
Campeche, Morro das Pedras, Armação. Uma obra de arte
saída das mãos e do coração de algum pintor divino.
Um quadro para não esquecer jamais.
Mas
o dia termina, e depois de alguns minutos de paz e
silêncio, na contemplação daquele espetáculo da natureza,
chega a hora de voltar aos pedais e acelerar o coração.
Vai começar o momento mais ansioso da aventura: as
longas descidas. "Elas são tentações irresistíveis",
comenta Eduardo de Souza, que já viu várias vezes
o ciclocomputador de sua bike marcar mais de 80 Km/h.
É preciso completo domínio do equipamento nesta hora,
pois uma pedra ou um pequeno buraco podem criar uma
tragédia.
Afinal,
depois de alguns sustos e derrapagens, retornamos
ao ponto de partida no momento em que os carros acendiam
seus faróis e os últimos raios de sol refletiam-se
nas águas claras da lagoa. Exaustos, cobertos de suor
e de pó, mas com a alma leve de quem ganhou o seu
dia.
Uma
ilha cortada por trilhas
A
Trilha da Florestinha é apenas uma das 30 que existem
em Florianópolis. Vinte delas são viáveis. Ou seja,
não cortam propriedades particulares, onde é necessário
autorização para passar. Até hoje estas trilhas estão
na cabeça de poucos privilegiados, como Luiz Marcos
Peixoto e Henrique Coutinho, considerados os dinossauros
do mountain bike em Florianópolis.
Mas
os dois não vão guardar a sete chaves este segredo
de 11 anos de aventura por muito tempo. Há seis meses,
eles começaram a escrever um livro para mostrar as
20 trilhas viáveis da Ilha de Santa Catarina. O guia
vai trazer informações de todo tipo: história da trilha,
grau de dificuldade, onde iniciá-la, distância, tempo
aproximado, fauna e flora da região, gráficos de altimetria
e visão tridimensional. Enfim, um verdadeiro atlas.
Cada
trilha tem a sua história. Algumas são antigas picadas,
através de montanhas, feitas para reduzir a distância
entre duas comunidades, como a de Ratones a Saco Grande.
Outras serviam para passagem de animais e produtos
da colônia, como a do Sertão do Peri. Tem trilhas
mais recentes que seguem o trajeto das torres de energia
elétrica. A da Florestinha, por exemplo, foi aberta
para levar aventureiros até a rampa da asa delta.
Dicas
pela Internet
O endereço www.trilhasbr.com.br
possui informações detalhadas (planilha de navegação,
coordenadas GPS, mapas, fotos, etc) das trilhas da
região.
Em
Santa Catarina, outros excelentes roteiros de cicloturismo
são o Circuito das Cachoeiras de Corupá, as montanhas
de São Pedro de Alcântara e a antiga estrada de Ferro
entre Blumenau e Ibirama. Se isso ainda é pouco, procure
mais sugestões junto à Federação Catarinense de Ciclismo,
em Joinville.
Seis
dicas para iniciantes
1.
Existem acessórios básicos que você não pode abrir
mão: um bom capacete; kit de reparos de pneu, incluindo
espátulas e bomba de ar; garrafa para água; roupas
adequadas: bermudas, luvas e tênis ou sapatilhas.
2.
Um ciclocomputador também é bem-vindo, pois proporciona
um controle maior do tempo e da distância pedalada.
3.
Os locais ideais para pedalar são aqueles onde se
têm o maior contato com a natureza e que sejam calmos
e sem muito trânsito.
4.
Procure sempre pedalar acompanhado, principalmente
em percursos ainda desconhecidos. Até porque não existem
mapas confiáveis para territórios inexplorados.
5.
É cada vez mais difícil encontrar um local próximo
para se pedalar. Procure outros bikers e clubes e
informe-se sobre os locais mais adequados. Uma boa
dica é participar de passeios organizados.
8.
A freqüência está diretamente ligada com o quanto
você gosta de pedalar e com suas prioridades ou compromissos.
Pedalar somente nos finais de semana, às vezes, é
a única opção que resta. Procure, contudo, nem que
seja por poucos minutos, executar essa atividade umas
duas ou três vezes durante a semana.
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Texto:
Paulo Scarduelli
Fotos: Lúcia Konder Reis
Revista Mares do Sul
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