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Respirar
o ar misturado com maresia ao desembarcar na Ilha
do Arvoredo revigora nossos sentidos amortecidos pela
civilização. Percebemos a pequenez humana diante das
forças da natureza. O barulho ritmado das ondas nos
rochedos é pura poesia. Arregalamos os olhos diante
da beleza em estado bruto. Mergulhar nas águas transparentes
e piscosas de uma das ilhas que formam a Reserva Biológica
Marinha do Arvoredo, localizada 11 quilômetros ao
norte da Ilha de Santa Catarina, cimenta de vez a
sensação de encantamento na alma do visitante.
Arvoredo
é importante. Foi e continua abrigo natural para os
navegadores em alto-mar. A ilha é grande e alta, e
tem baías com águas calmas para proteger dos ventos
que sopram forte na região. A baía norte esconde do
vento Sudeste, que assusta no inverno. A baía do Capim,
no sudoeste, abriga do vento Nordeste, que sopra mais
no verão. Quando o clima fica ameaçador, todos os
barcos que estão nas redondezas apontam a proa para
Arvoredo. Em dias de mau tempo, as tripulações das
traineiras e barcos têm encontro marcado em suas águas
protegidas.
O
farol, com alcance de 24 milhas, serve como bússola.
Arvoredo é ponto de referência para a navegação nos
mares do sul. E é o melhor pesqueiro da região. Pescadores,
mergulhadores e navegantes reverenciam a ilha. Pelo
abrigo, pelos momentos de contemplação nas águas cristalinas
ou nas baías escarpadas... por qualquer razão ou ângulo
de vista a ilha é sempre monumental.
Fronteira
biológica
Uma
das duas únicas reservas biológicas marinhas do país,
apesar dos 8 mil quilômetros da costa brasileira -
a outra é o Atol das Rocas, no Rio Grande do Norte
-, a reserva do Arvoredo engloba 17.800 hectares distribuídos
pelas ilhas do Arvoredo, Galé e Deserta, pelo calhau
(fragmento de rocha) de São Pedro e por toda a faixa
marinha que os cerca.
Arvoredo
tem uma característica especial. É uma fronteira entre
as regiões Tropical e Subtropical, uma encruzilhada
climática e biológica. Ali, a Corrente do Brasil,
vinda do norte, de águas claras e quentes, se encontra
com a Corrente das Falklands, de águas polares, transportando
grande quantidade de nutrientes. Por causa disto,
convivem e reproduzem no local peixes tropicais e
exemplares das águas frias do sul, como pingüins e
baleias. A fauna é exuberante. Camarão rosa, lulas
ou vieiras, lagostas, polvos, garoupas e centenas
de outras espécies desfilam diante dos mergulhadores.
Sem esse criadouro natural, as garoupas, por exemplo,
que levam três anos para definir o sexo e, portanto,
para começar a procriar, estariam com a sobrevivência
ameaçada na região. Aves marinhas como o trinta-réis
ou andorinha-do-mar, a fragata, o atobá e a gaivota
vivem e têm seus filhotes nas ilhas da reserva, que
também servem como porto seguro para o descanso de
aves migratórias. Pingüins, tartarugas, baleias e
golfinhos são outros visitantes ocasionais da área,
escolhida pela tranqüilidade e isolamento.
Inscrições
rupestres
Além
da riqueza da fauna, a reserva tem outros tesouros.
A ilha do Arvoredo, a maior delas, preserva 270 hectares
de Mata Atlântica. O coqueiro gerivá é o símbolo dessa
flora local. Além da mata nativa exuberante, instigantes
inscrições rupestres povoam os rochedos dos costões
das ilhas. Conhecidas como itacoatiaras, elas são
sinais inequívocos de que o homem pré-histórico visitou
o lugar, onde também deixou oficinas líticas (lugares
nas pedras para manufatura de ferramentas) e sítios
arqueológicos do tipo sambaqui (depósitos de conchas,
restos de cozinha e esqueletos).
Por
todas estas características, Arvoredo é um lugar especial
para a região. No início da década de 80, esta diversidade
ecológica inspirou ambientalistas a pressionarem pela
criação de uma área de proteção no local.
A
ação
do homem
Desde
1750, quando os imigrantes açorianos que colonizaram
o litoral catarinense descobriram a fabulosa piscosidade
das águas locais, a pesca é explorada no local de
forma artesanal ou industrial. Nas últimas duas décadas,
a caça submarina e a pesca nos costões também contribuíram
para a diminuição drástica de grandes peixes, crustáceos
e moluscos de interesse comercial. Toda essa movimentação
provocou prejuízo aos registros deixados pelas populações
históricas das ilhas - alguns sambaquis foram danificados
pela construção de galpões de pesca. Outra agressão,
a coleta de ovos de aves marinhas em reprodução, tornou-se
comum entre visitantes.
A
criação da reserva
A
criação da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo tornou-se
realidade em março de 1990, através do decreto 99.142.
O Ibama escolheu essa categoria de manejo depois de
avaliar in loco os crescentes danos ambientais a que
estava exposta a área. Reserva é a categoria de manejo
ambiental mais restritiva, que impede o acesso sem
autorização em sua área. As outras categorias são
parques - nos quais a visita é normatizada, mas permitida
-, APAs (áreas de preservação ambiental), RPPNs (reservas
particulares do patrimônio natural) e outros tipos
com menos restrições. A escolha pela categoria reserva
ainda hoje é contestada pela população do entorno
e operadoras de mergulho.
Para
compensar a restrição ao acesso, o Ibama, a partir
de 1997, tem buscado uma maior integração com a comunidade
através de projetos-pilotos de mergulho contemplativo
e inclusão da educação ambiental como matéria extracurricular
nas escolas da rede municipal da região. O mergulho
contemplativo vai possibilitar uma reaproximação com
as operadoras, normalizando a exploração do turismo
submarino na reserva, proibido desde 1994.
Em
parceria com a Facimar (Faculdade de Ciências do Mar,
em Itajaí), o Ibama também executa um programa de
educação ambiental em 44 escolas dos seis municípios
que têm limites com a reserva - Florianópolis, Governador
Celso Ramos, Tijucas, Porto Belo, Bombinhas e Itapema.
São basicamente filhos de pescadores que estudam sobre
a reserva nas aulas de Geografia, escrevem redações
sobre meio ambiente nas aulas de Português, aprendem
sobre devastação da Mata Atlântica nas aulas de História.
A flora e fauna da região são conhecidas via Biologia.
A
criação da reserva
Esses
projetos só foram possíveis graças a uma base preciosa
- um detalhado banco de dados que o Ibama começou
a montar em dezembro de 1994 e que atualmente é referência
internacional. Através dele, é possível acessar, por
computador, cada um dos 458 espécimes, entre fauna
e flora, presentes na reserva. O cadastro revela se
são residentes na área ou passam por ali em processo
migratório, se estão sujeitos à extinção, seus hábitos
alimentares e predadores. Uma descrição física da
espécie, com direito à fotografia colorida, completa
a ficha. Sem falar dos mapas e ilustrações sobre a
região.
Através do banco de dados, pode-se conhecer detalhadamente
todas as atividades humanas que ocorrem na área -
pesca, mergulho, desembarque nas ilhas (que é proibido),
trânsito de passagem para outros locais e passeio.
Até mesmo a profundidade em que ocorre cada tipo de
pesca ou o percentual de rejeito (peixes não aproveitados)
são do conhecimento dos pesquisadores.
Trabalho
exemplar
Este
acervo é resultado de árduos meses de vigília no mar
e nas ilhas, de muitas horas de mergulho, conversas
com os pescadores e também de um cruzeiro oceanográfico
realizado a bordo do navio de pesquisa Diadorim, da
Facimar, além de exaustivas pesquisas bibliográficas.
Os
monitores cadastraram 336 embarcações que passaram
pela reserva, classificando-as quanto ao número de
tripulantes, procedência, proprietário, petrechos
(tipo de acessórios utilizados para pesca ou mergulho)
e tipo de pescado. O esforço valeu a pena. Além de
sensibilizar os pescadores sobre a importância da
reserva para o repovoamento de espécies marinhas na
região, os oceanógrafos acabaram desenvolvendo um
projeto de monitoramento e tratamento de dados pioneiro
em unidades de conservação no país.
Informações
Mais
informações no site da Reserva
Biológica Marinha do Arvoredo.
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