Entrevista: Agricultura para Sustentar o Futuro

Julho/2001

Eros Marion Mussoi, engenheiro agronômo, doutor em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável; professor, em tempo parcial, do curso de Agronomia e do mestrado em Agrosistemas (UFSC), diretor da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural do Estado de Santa Catarina (Epagri) com gestão até setembro de 2001.

O assunto principal é agricultura sustentável

Em linhas gerais, quais são as diferenças entre a agricultura moderna e a agricultura sustentável?
A agricultura chamada de moderna teve duas revoluções. Uma no século 19 e outra em meados do século passado. A principal foi a segunda que determinou uma nova dinâmica para a agricultura. Com a justificativa de acabar com a fome no mundo, se criou o que convencionalmente se chama de revolução verde. Essa revolução foi um procedimento de melhoria genética, principalmente, de plantas, depois de animais, pelo qual se buscou maior produtividade. Essa maior produtividade foi buscada, no início, pela diminuição dos entrenós das plantas. Por exemplo, um pé de milho crioulo, tradicional, é alto. Então, prá melhorar a produção, através da adição de insumo… se somente se colocasse insumos, ele ia crescer muito e ia acamar, que foi o que aconteceu. Então, na segunda metade da década de 1940, algumas fundações, não por acaso, como a Fundação Ford, Fundação Rockfeller, começaram a investir na melhoria genética, buscando maior produtividade. Primeiro para o trigo, milho e arroz. Diminuindo os entrenós das plantas, deixando plantas menores, elas suportavam maior carga de adubo. Diminuindo o tamanho das plantas e produzindo mais com mais insumos é evidente que as ervas daninhas também cresciam. As plantas ditas "más". Na agricultura sustentável não tem "plantas más". Então, a partir daí começa a se estabelecer o que se chamou de pacote tecnológico. Uma planta geneticamente melhorada como os milhos híbridos e o trigo de melhor qualidade necessitavam obrigatoriamente de um pacote tecnológico ou um conjunto de técnicas (adubos, aditivos, agrotóxicos, irrigação, motomecanização). Isso é, de uma forma muito simples, o processo de modernização da agricultura, que teve uma influência muito grande nesses últimos cinqüenta anos, no mundo inteiro. Evidente que a ciência mostrou o seu potencial porque algumas plantas aumentaram a sua produtividade, mas essas mesmas variedades, sem esse pacote, produzem menos do que as convencionais. Essa é uma das conseqüências da modernização. Mas as duas principais conseqüências foram a enorme exclusão social e cultural, à medida o mundo não precisa produzir mais alimentos. Alimentos tem, a questão é de distribuição eqüitativa, democrática desses alimentos e de distribuição de renda. Ou seja, a agricultura moderna causou um enorme exclusão social, à medida que a grande maioria dos agricultores familiares não se encaixaram a esse novo modo de produção porque esse era extremamente caro, dependente de crédito, e trouxe uma enorme dependência porque tem que mudar as sementes, todos os anos. Além da exclusão social, trouxe também a exclusão cultural também porque se desmereceu o conhecimento historicamente acumulado pelos agricultores, de geração a geração.

A agricultura acabou se tornando um processo muito particularizado de técnicas desenvolvidas em laboratório?
Muito particularizado, muito localizado… Houve uma certa hierarquização de saberes. O cientista tem determinado saber, o agrônomo e o extensionista tem outro e o agricultor é um "pobre coitado", que não tem conhecimento algum. Então, se estabeleceu essa lógica hierarquizada e extremamente excludente do ponto de vista cultural e social. Isso possui uma enorme conseqüência também na erosão do conhecimento. A ciência mostrou o seu potencial que, se jogado pro lado do desenvolvimento sustentável, mostra a capacidade que nós temos de gerar um outro modelo.

Esses são os custos sociais e os custos ambientais dessa modernização?
Os custos ambientais são esses que, hoje, está-se tentando reverter. Pro meu gosto, muito a nível de discurso e pouquíssimo a nível de prática. Acho que se faz medidas paliativas nesse ramo. Há algumas medidas efetivas, mas muito discurso, basta olhar os resultados da Eco'92…

Uma das críticas é justamente que os planos de desenvolvimento sustentável são "muito bacanas", são politicamente corretos, mas as boas intenções ficam somente na retórica…
Eu não vou dizer que sempre é assumido como retórica, acho que está avançando, mas o termo passou a ter função obrigatória de estar no discurso do que propriamente assumir esse discurso. Então, sobre a questão ambiental… Eu fico impressionado ao passar todos os dias e me deparar com a placa da Pedrita no morro do Rio Tavares: Pedrita, a primeira pedreira do Brasil que ganhou a ISO 14.001 por consciência agroecológica… Daí eu desvio um pouquinho o olhar e vejo um morro de Mata Atlântica que eles estão destruindo. Que consciência é essa? Não é nem discurso, isso é compra de um selo. Essa é a lógica, hoje. (…) Então, além da perda cultural e social, esse modelo convencional de agricultura também trouxe uma enorme conseqüência no sentido contrário à biodiversidade. Se a gente vai fazendo os contrapontos, já dá prá traçar o que seria o modelo sustentável… Por exemplo, a revolução verde se concentrou em alguns produtos especiais. Tem um livro muito interessante de uma jornalista americana, Susan George, que fala sobre o mercado da fome, no qual ela aborda as verdadeiras razões da fome e discute a revolução verde. Ali tem um dado interessante: no mundo tem 80 mil espécies alimentares e 90% da alimentação mundial está centrada, hoje, em 50 dessas espécies. Eu trabalhei nas Nações Unidas, pela FAO, cinco anos na África e lá eu aprendi a comer coisas que, aqui, nós jogamos herbicida em cima.

Por exemplo…
Picão… aquilo que você vai pro campo e prende na pele. Isso é riquíssimo em ferro. Lá, eles fazem prato riquíssimo…

Digamos que, para os nossos olhos, não "pega bem" consumir caules, folhas de cenoura, beterraba…
Eu discuto isso com nutricionistas, é uma questão nutricional… como razão para resolver a questão da fome no mundo efetivamente através de uma perspectiva sustentável. Na África, eu aprendi a comer amarantus, que dá no meio da soja e se joga herbicida em cima, mas tem uma qualidade nutricional interessante. Então, eu estava falando do livro da Susan George prá mostrar a questão da biodiversidade… A partir dos anos 1950, 1960, começa a entrar esse novo modelo de agricultura, as monoculturas, pelas empresas agrícolas e é uma tremenda agressão ambiental, destrói os ecossistemas, sem nenhuma perspectiva de sustentabilidade. Esse modelo convencional nos jogou num beco quase sem saída. Hoje, a gente tem que discutir modelo sustentável em cima de uma natureza profundamente degradada, em cima de um processo de erosão cultural…

Como vai ser o processo de transição para esse modelo sustentável?
Eu costumo dizer que nós estamos iniciando o processo de transição. O modelo hegemônico ainda é o processo "moderno". Nós estamos conscientes que isso não resolveu o problema e trouxe outros problemas, estamos começando a transição. Essa transição implica em considerar muitas coisas feitas. Por mais que o Rio Grande do Sul tenha feito uma opção pela agroecologia, aqueles três milhões de hectares de soja estão lá, eles fazem parte de uma estrutura produtiva. Isso é uma coexistência que tem que ser entendida, não é um decreto que vai acabar com isso. É um processo de reconversão gradativa. Agora, não tenho idéia de como fazer isso. Interessante que os europeus pensam muito na gente, que a gente tem que fazer isso. Eles deveriam pensar neles também, como é que eles poderiam fazer isso.

As indústrias de insumos agrícolas, sejam aditivos, adubos ou mesmo máquinas, são muito grandes, em geral são empresas transnacionais que tem um poder econômico muito forte…
Uma das coisas que explica a revolução verde é que, com o final da Segunda Guerra Mundial, um imenso parque metal-mecânico ficou obsoleto. Então, não é por acaso que quem financia a revolução verde são as fundações como a Ford e a Rockfeller, que tinham alto interesse no capital internacional. Era uma forma de desafogar o seu parque industrial. Quer dizer, em vez de produzir material prá guerra, vamos produzir tratores… Então, se estamos nessa transição e vamos coexistir com esses dois paradigmas de desenvolvimento por um tempo, vamos começar a olhar essa nova ciência, vamos ter expectativa de alguma coisa diferente. Evidentemente, pegando os contrapontos, a gente começa a desenhar o novo modelo sustentável e ele é multidimensional, ele não é só econômico produtivista como está sendo esse. Quando eu falo multidimensional, no mínimo, tenho de trabalhar com cinco dimensões. É evidente que a sustentabilidade econômica é fundamental, mas a sustentabilidade social, a sustentabilidade cultural são fundamentais. Primeiro que essa concepção de desenvolvimento sustentável não vem pronta, eu não tenho, você não tem… e ainda bem porque daí não é massificada, ela cresce endogenamente numa comunidade lá no Rio Vermelho ou em Santa Terezinha, lá em São Miguel do Oeste. Esse desenvolvimento tem dimensões, mas ele é construído localmente, regionalmente… Dessa forma, você trabalha com as potencialidades locais, com o conhecimento local, com maior autonomia técnica, econômica, organizativa… As dimensões estão ali, estão sendo dadas, mas temos que ter atenção ao social, ao econômico, ao cultural, nós temos que ter atenção ao ambiental…As concepções de desenvolvimento, chamadas de "desenvolvimento", as primeiras trataram muito do crescimento econômico, crescer a produção e a produtividade… você vê que há uma evolução nas concepções de desenvolvimento, da questão puramente econômica até a incorporação da questão ambiental, passando pela incorporação do social como conceitos. Se bem que os hippies já apontavam isso na década de 1960…Mas, especialmente a partir da década de 1980, a dimensão ambiental, às vezes muito mais no discurso que na prática, passa a ser uma preocupação dos movimentos sociais, dos políticos oportunistas, dos políticos sérios. Agora, uma das principais dimensões que eu acho ainda muito fraca é a política. Às vezes, os políticos falam muito do desenvolvimento sustentável e a questão ambiental como: "ah, vamos plantar mais árvores". Não é isso, é a questão do Homem, como ele vê a natureza, como constrói essa relação e como o Homem é protagonista e ator dessa concepção de desenvolvimento.

A natureza não é muito "folclorizada"?
Acho que é um pouco isso, mas eu vejo que a questão política do protagonismo, da cidadania, isso é que está atrás dessa concepção. É o grande pano de fundo do desenvolvimento sustentável. Então, quando você fala de uma concepção sustentável que está mais localizada e deve ser endógena, você passa a ver que as populações devem se organizar. Devem e estão se organizando. Então, também deve se ter atenção para esse lado político, pro meu gosto… Se o ambientalismo permanece só no discurso, essa dimensão política é um puro descalabro, é pura demagogia. Veja, a palavra "participação"…Hoje está na boca de todos partidos, daquele mais à direita, o mais conservador, como nos de esquerda, como aquele que, pelas minhas convicções, é o que mais pratica isso ou, pelo menos, mais defende. Mas a palavra "participação" pode ter um espectro muito grande de o que as pessoas entendem como participação. Tem desde receber informações sendo entendido como participação, como outros que com a presença se legitima com programas, políticas, planos de ação, até participação efetiva em que você divide com a população a capacidade de formulação e gestão das políticas públicas, por exemplo. (…) Então, é uma outra concepção de desenvolvimento em que os índices técnicos, econômicos e organizativos são construídos junto com a população e que, certamente, se nesse modelo convencional o Estado foi o grande indutor, esse Estado autoritário e centralizador…No desenvolvimento sustentável, nós temos que reinventar o Estado. Eu não nego o "Estado". Acho que isso seria um absurdo negar o Estado em função de uma perspectiva unicamente de mercado, mas tem que reconstruir outras relações políticas.

A agricultura sustentável sempre vai ter baixo insumo externo? Como fica a idéia das grandes biofazendas, organizadas e supervisionadas por gerentes, utilizando computadores, por exemplo?
Eu acho que a informática pode ajudar… ela é um instrumento.

E o uso de grandes máquinas? Elas não são responsáveis pela desestruturação do solo?
Sem dúvida. Eu defendo que essa agricultura deve ser de base ecológica porque, hoje, tem a discussão de conceitos entre "sustentável" e "sustentado". "Sustentado" pode redundar numa equação, entrou tanto de insumo, saiu tanto de produto (input e output), se equilibrou, "está sustentado". A agricultura sustentável com base ecológica, principalmente, é uma forma de se relacionar o mais harmonicamente possível com a natureza. O Homem interferir no ambiente já é uma agressão, é uma intervenção. Que isso se faça em favor da humanidade para produzir alimentos, para produzir material, tudo bem, só que essa relação tem que ser a mais natural possível. Se essa relação é o mais natural possível e implica em mexer no solo, você tem que mexer o menos possível. Para que seja possível que as pessoas se promovam social e economicamente, mas que se considere as gerações presentes e futuras. Na sustentabilidade, você tem que ter uma relação harmônica com a natureza… de produção econômica, mas que tenha menos externalidades e que respeite a lei da entropia. Por exemplo, o que acontece no oeste do Estado. Nós tínhamos cento e tantas mil pessoas que viviam da suinocultura. Então, se implanta um modelo de exploração da suinocultura a partir das grandes agroindústrias, Perdigão e Sadia, que passam a aumentar a escala de produção com uma tecnologia super refinada. Antes, eu era suinocultor, você era, o vizinho… Agora, eu sozinho produzo o suíno que a Sadia precisa. Então, as pessoas tinham dez ou doze porcas, passaram a ter cem ou cento e vinte. Isso gerou, primeiro, um processo de exclusão. Hoje, tem 18 mil integrados em Santa Catarina na Cooperativa Aurora, Sadia, Perdigão… A exclusão social foi uma conseqüência disso. A outra é o dano ambiental. Ninguém pensou no que fazer com os dejetos suínos.

Um suíno polui o equivalente a quatro ou cinco pessoas, é isso?
Eu acho que até mais, mas não tenho esse dado. No entanto, é uma coisa brutal. É uma externalidade que essa atividade produz. Mas nós estávamos falando de tecnologia…

Tem tecnologia de ponta na agricultura sustentável?
Aí tem que caracterizar o que é tecnologia de ponta. Eu, por exemplo, acho que a agroecologia é um estilo de agricultura de ponta, que trabalha com processos naturais com alto conhecimento científico. Eu faço uma diferenciação entre esse tipo de conhecimento e o conhecimento empacotado da revolução verde que diz assim: essa sementinha de milho precisa de tantos sacos de adubo, tanto agrotóxico… qualquer criança passa essa mensagem adiante. Eu costumo dizer que o modelo sustentável implica em outras dimensões de integração político-pedagógica, uma delas é a pesquisa. Você não tem um pesquisador dono do saber que vai fazer doutorado na Inglaterra, nos Estados Unidos, vem de lá, adaptando pesquisas de lá prá cá. Você tem uma outra perspectiva de pesquisa, a pesquisa é feita junto com os atores sociais e não tira a sua cientificidade. Você tem uma extensão rural, como nós trabalhamos aqui, diferente daquela extensão autoritária em que o agrônomo pegava um pacote e induzia os agricultores a usar, através do crédito agrícola. É uma extensão baseada no método Paulo Freire, na educação dialógica, onde você vai construindo alternativas com as pessoas, o agricultor, o extensionista e o pesquisador trabalhando juntos. Tem uma outra dinâmica nessa relação que busca o desenvolvimento sustentável. Claro que a dimensão solidariedade é outra perspectiva, que parece utopia… mas se perder a utopia… aliás, tem algumas coisas que se perder, a utopia, o amor, a gente tende a definhar…Eventualmente, se pode até dar uma moratória prá utopia, mas a gente tem que ter essa perspectiva de forma permanente.

Outra discussão é se o desenvolvimento sustentável é adequado para tratar de um crescimento contínuo porque os recursos existentes não comportam isso…
Eu diria que o desenvolvimento no sentido de promover as pessoas implica numa série de condições. Primeiro no equilíbrio de consumo. É inadmissível tentar repassar um modelo de 10 ou 15% da população mundial para o resto da humanidade. Isso é impossível. Vamos pegar o exemplo dos países nórdicos. Se os caras de lá comem 4.000 calorias e não precisam disso, eles tem que rever os padrões de consumo. Quando eu falo dos nórdicos, eu falo também que 1% da população brasileira tem que rever os seus padrões em função de um coletivo muito maior. Então, no momento em fizer essa revisão, e isso faz parte de uma concepção de sustentabilidade, essa necessidade de crescimento econômico, do produto interno bruto por exemplo, pode ser feita de uma forma mais harmônica com a natureza. É isso que o desenvolvimento sustentável e a agroecologia defendem. Você pode buscar uma forma de produção mais próxima aos processos naturais e que possibilite crescer. Seria absurdo dizer: a África não precisa aumentar a produção de alimentos, ela vai viver eternamente de doações. Não é isso. E a África tem um potencial enorme de crescimento dos produtos alimentares. Longe de pensar no crescimento zero. Acho que essa é uma visão ambientalista extrema.

Quais são os projetos de desenvolvimento rural sustentável que estão em desenvolvimento?
Por exemplo, São Joaquim. Em pleno berço da maçã convencional que recebia vinte e cinco tratamentos de agrotóxicos, tem um grupo de pessoas produzindo a mesma maçã sem agrotóxicos numa concepção agroecológica. Aqui, em Santa Catarina, tem uma imensa quantidade de experiências, mas que, pela sua natureza micro, não são enaltecidas ou são pouco conhecidas, assim como no Rio Grande do Sul ou Paraná, e que estão demonstrando a capacidade de apresentar um produto agroecológico. Aí a agricultura familiar passa a ter uma importância muito grande frente ao empresarial. É um outro desenho produtivo, seja a nível nacional, seja prá unidade de produção. É como diz o Santiago Sarandon: Dêem, pro desenvolvimento sustentável e prá agroecologia, 10% do que foi aplicado em pesquisa no modelo convencional e vocês vão ver o que é possível fazer. Essas experiências não tem apoio institucional. Nós aqui, na Epagri, estamos trabalhando há 40, 50 anos com pesquisa agropecuária, mas dentro da perspectiva convencional. Quer dizer, essa é a empresa que eu dirijo… muitos de nossos pesquisadores estão fazendo testes prá empresa multinacional prá poder fazer pesquisa. Particularmente, sou contra, mas eu sou um voto, tem outros também que são contra, mas… nós temos que estar lutando prá ter recursos. O Pronaf - Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - que deveria estar financiando um tipo de agricultura mais coerente com a agricultura familiar, não tem nada específico prá trabalhar com a sustentabilidade ou agroecologia. É uma deficiência muito grande, é uma negação por parte do Estado. Quando falo Estado, é o ente político, não falo do estado de Santa Catarina. Muito discurso e quase nada na prática. Não é que não tenham projetos. Por exemplo, agora vai ter, em Chapecó, o Seminário Estadual de Agroecologia. Nesse seminário vão ser apresentadas uma série de experiências… da Epagri de Ituporanga que trabalha com o setor agroecológico, da Econeve de São Joaquim que trabalha com essa maçã agroecológica, cooperativas de crédito, a rede Ecovida… Tem uma série de agricultores que está buscando essa alternativa. Um colega meu, que fez doutorado na Espanha, estudou os grupos que estão fazendo agroecologia no Rio Grande do Sul… Disseram prá ele: "Se eu não buscar alternativa, isso que tá aí não me resolve, então eu vou prá cidade". Então, tem a questão da consciência ecológica e tem a questão do último cartucho. As pessoas não agüentam mais esse modelo que tá matando, intoxicando…

Mas o que foi traçado na Agenda 21 durante a Eco'92…
Participei da discussão da Agenda 21. Aliás, desde o ano passado, está se falando em construir uma Agenda 21, aqui em Santa Catarina, só que as pessoas querem construir uma Agenda 21 sem olhar o que está sendo feito na prática. Esse é o problema, a necessidade de reinventar o Estado. (…) Na primeira reunião sobre a parte de agricultura, que foi feita aqui no auditório da Epagri, se queria que, em duas semanas, se fizesse um documento. É um absurdo, não é uma coisa séria. O que parece é que o Estado tenta se justificar com a sociedade que está fazendo alguma coisa, então tá empurrando essa discussão e nada de prática. Eu não sou dos pragmatas, acho que a coisa tem que ser pensada, tem que ser levada adiante, mas com o envolvimento da população efetivamente. Mas muita coisa tá acontecendo e é bom que aconteça assim porque à medida que acontece a partir dos movimentos sociais, das comunidades, essas são experiências que ficam. Não é que esses setores não tenham que ter apoio público, apoio externo, mas, pelo menos, isso está nascendo endogenamente, nascendo de dentro prá fora. Em momento algum, por ter uma perspectiva endógena, ela é exclusiva, sem apoio de fora. Falando das máquinas… É claro que a mecanização agride mesmo o meio ambiente, mas não quer dizer que não se possa desenvolver uma máquina que mexa no solo um pouco, que diminua o esforço das pessoas e que se tenha mais tempo prá lazer. Ninguém é contra isso. Agora, vê o que aconteceu com a moto-mecanização? Ela expulsou gente da terra. Isso eu tenho certeza que não é sustentável. Agora, ninguém em sã consciência, pode dizer que não assume nenhum insumo externo, principalmente, nesse processo de coexistência, de transição na busca de alternativa. Tem alguns exemplos, aqui, em Santa Catarina, no Paraná, no Rio Grande do Sul, que é o trabalho com conservação de solo e plantio direto, que visa mexer o menos possível com o solo. Está se fazendo isso em grandes áreas de monocultura. É um passo prá mexer menos no solo, embora ainda esteja usando herbicida. Então, é uma dinâmica. Isso está crescendo. O que a gente tem que cuidar é que não mude o discurso, a partir de algumas práticas, só em favor das multinacionais.

O Sr. falou do problema da suinocultura no oeste catarinense, quais são os outros problemas?
Eu acho que nós temos naturezas diferentes de problemas. Um é a suinocultura, que é um problema grave e premente, de difícil resolução, localizado no oeste e um pouco no sul do Estado. Eu acho que esse problema deveria ser passado para as agroindústrias que o criaram. Agora, a questão do modelo baseado no adubo, agrotóxico, mecanização, é pouca, mas tem, ele gerou uma agricultura dependente e poluidora, isso é sério. Em termos de agressão ambiental, o problema está distribuído praticamente no Estado inteiro.

Tem muitas regiões com solos comprometidos? Onde estão localizados?
Nós temos até quase desertos, no oeste. Solos que foram muito revolvidos, se tirou a mata primária, tirou a mata secundária, a mata terciária…É muito difícil a recuperação desses agrossistemas. Isso é um trabalho imenso, por isso eu valorizo e reclamo a ação de Estado. Tem áreas bastante degradadas no planalto norte, no oeste mesmo. Estranhamente, Santa Catarina é um dos poucos estados que, apesar de pouco, ainda têm cobertura vegetal. Hoje, ainda temos 15% da cobertura original.

Hoje, em lojas alternativas, se encontra uma variedade de selos: produto orgânico, produto natural, produto sem agrotóxico… Como consumidor, como posso ter segurança sobre esses selos?
Não, não tenha certeza.

Mas dá prá consumir?
Primeiro, uma diferenciação. Uma coisa é ter uma produção orgânica, teoricamente não usando química. Outra é ter um produto agroecológico. A agroecologia é muito mais do que uma produção orgânica. Você ter, por exemplo, na região de Ituporanga, cem hectares de cebola ou alface que não são agroecológicos. Por quê? Porque a agroecologia defende a biodiversidade. A monocultura não se aplica na agroecologia. Voltando à questão do selo… Eu procuro consumir alguns produtos agroecológicos. Não vou fazer propaganda, mas alguns selos, eu conheço. Agora, tem muita enganação atrás disso. Como a Pedrita tem uma ISO 14.001 e está destruindo uma parte de Mata Atlântica, nessa questão de certificação também tem problema. Isso tem sido muito discutido, a forma de fazer uma certificação autêntica, garantida porque isso virou um comércio. Por um lado, a certificação virou um comércio… A visão é unicamente de mercado. Até se criou um dizer do "ecológico em transição". Isso não existe. Ou é ou não é. É uma certa mecânica mercadológica. Por outro lado, eu trouxe, prá diretoria da Epagri, uma série de rótulos que coletei em supermercados citando o nome da empresa: "produto ecológico, assistência da Epagri". (…) Produtos de agricultores que não eram assistidos por nós, que simplesmente estavam colocando isso no rótulo, e o mercado que aceita isso, tipo supermercado do porte do Angeloni, teria obrigação de conferir. Eu tenho muito medo de recomendar alguém, como consumidor, de recomendar selo tal … O que a sociedade tem que discutir é a forma de certificação. Existe um projeto de lei aqui para criar uma associação de agricultores que certifique. Então, eu sou teu vizinho e participo do grupo, eu sei o que você colocou ou se colocou veneno ou outras coisas. Claro que tem uma supervisão técnica. O que está existindo hoje é uma visão unicamente mercadológica. Prá mim, é muito perigoso porque você pode até queimar uma proposta séria na medida em que você passa a vender uma coisa que não é… Embora pareça que eu esteja passando uma visão extremamente pessimista, eu sou otimista, eu acho que nós estamos avançando e luto prá isso, como cidadão, como militante, como técnico, como político… É uma situação que existe em todas as áreas, por parte do Estado, por parte do político, do comércio, até por parte da academia, um enorme oportunismo. Agora, tem muita gente séria também…

Qual é o conceito de energia na agricultura?
Quando se diz que a agricultura está baseada na energia do ambiente, está se dizendo uma coisa muito profunda porque não é só o solo. O solo é um produtor de energia porque é uma coisa viva. Isso o modelo convencional de agricultura negou porque entendia o solo como um substrato mineral. Hoje, está provado que o solo tem uma enorme potencialidade de produzir energia pelas suas relações biofísicas e bioquímicas. Quando se fala de ambiente, então o sol, claro, é um enorme fornecedor de energia, mas o solo também é. E as relações que se formam na natureza são de um complexo energético muito grande.

Já existem vários experimentos na criação de gados com áreas de manejo, onde existem os corredores de árvores, para trabalhar com essa questão do aproveitamento da radiação solar e a reflexão produzida pelo solo e pela mata…
É, você usa uma relação do animal com o ambiente, que potencializa o próprio animal para produzir energia. O esterco dele é um processo incorporado naturalmente. Aqui, na Universidade, o prof. Pinheiro Machado Filho trabalha com o método pastoreio racional, que é um método francês. Isso era proposto já na década de 1960 e, hoje, tem assentamentos de reforma agrária que utilizam esse manejo que procura fechar um ciclo energético-biológico. (…) Pensando aí nessa questão da energia, por causa da ameaças dos tais apagões… A potencialidade que esse País, que o Estado tem de fazer microrepresas para usar a água efetivamente de outra forma… A energia eólica é outra coisa que está sendo muito pouca desenvolvida aqui, está lá atrás ainda.

E a energia da biomassa?
Já se fez experiência com biodigestores.

É viável para comunidades pequenas?
Eu acho que é porque o mundo inteiro tem. Aqui tentou se importar uma tecnologia que não deu resultados… Acho que tem que pesquisar. Eu conheço alguns pesquisadores. Mas acho que não dá Ibope, são pesquisas difíceis, de longo prazo… Essa é a característica da produção de ciência que tem que reverter em outra concepção de desenvolvimento, que você não se paute pela pesquisa que vai apresentar um paper no congresso tal, vai publicar na revista tal…Uma pesquisa com cunho social no sentido de que retorne para a sociedade, independente do tempo. A gente é muito imediatista… Mas falando da energia eólica… Hoje já tem algumas experiências com enormes cataventos produzindo energia super barata. A energia solar, além da fotossíntese, está sendo usada mais nas cidades. Eu vi, no final da década de 1970, uma experiência na Universidade de Viçosa (MG) prá secagem dos grãos, usando energia solar. Mas são coisas que não se desenvolveram… Alguém mais crítico do que eu, diria assim: "não se desenvolveram por causa de interesses, porque tinha todo o interesse de fabricantes multinacionais de secadores". Se mexer vai se encontrar explicações que devem caracterizar o porquê de as coisas não andarem nesse País…

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