Entrevista: O Meio Ambiente no Campus Universitário

Junho/2001

Nito Ângelo Debacher, químico, doutor em Físico-Química, professor do Departamento de Química e diretor da Coordenadoria de Gestão Ambiental (UFSC)

O assunto é Gestão Ambiental na UFSC

Desde quando existe a Coordenadoria de Gestão Ambiental na UFSC? 
A Coordenadoria foi criada em 1996, durante a primeira gestão do Prof. Rodolfo Pinto da Luz. O objetivo é gerenciar a gestão ambiental dentro da universidade. Os objetivos específicos são cuidar de todo o Campus, ou seja, dos resíduos sólidos, que tem uma política organizada dentro desse trabalho, dos resíduos líquidos com a questão dos efluentes, da arborização e jardinagem do Campus e, com relação também a resíduos potencialmente perigosos que seria, no caso, lâmpadas, pilhas, baterias e o resíduo hospitalar. 

Além da Coordenadoria também existe o PIMA - Programa Institucional de Meio Ambiente.  
O PIMA foi criado para trabalhar com todo o programa de meio ambiente da universidade, mas ele é não relacionado ao Campus. Ele está relacionado a toda pesquisa realizada dentro da universidade que tem relação com o meio ambiente. Então, o PIMA tem que trabalhar com os projetos que tem a ver com o meio ambiente, mas não necessariamente com o Campus.

Mas há um parte de trabalho que é realizado em conjunto. 
Em colaboração, sim, a partir do momento que você tem projetos com relação ao Campus. Se tem algum professor com projeto que tem a ver com o Campus, a Coordenadoria engloba esse projeto dentro do gerenciamento da universidade como um todo e usa aquele professor para um trabalho. Naturalmente, com isso a Universidade já tem a ganhar, uma vez que tem um trabalho já iniciado que é o caso, por exemplo, do projeto de compostagem. Ele é um projeto anterior à criação da Gestão ambiental, de um professor que fazia um trabalho de pesquisa e pegava material dentro dos bares e restaurantes da Universidade, com alguns alunos de graduação do Centro de Ciências Agrárias, e fazia a compostagem. Esse projeto evoluiu a um ponto que a Gestão Ambiental englobou dentro do gerenciamento da Universidade porque funcionava muito bem e nós ampliamos e transformamos num projeto da Universidade. Agora, ele tem que dar conta de todo o resíduo de alimentos do Campus. 

A Coordenadoria consegue absorver todo o desenvolvimento gerado na Universidade? 
Consegue, consegue, desde que o professor nos disponibilize e queira fazer parte desse programa, porque, às vezes, o professor não tem interesse que a universidade assuma isso. Ou, às vezes, é um projeto meio mirabolante que não dá para encaixar dentro do programa. Na maioria dos casos, só vem a somar. Desde que haja uma possibilidade de fazer um caminho de duas mãos, onde você também se envolva. é ajuda mútua. Tem vários projetos andando na Universidade com essa finalidade e que funcionam muito bem que, inicialmente, foram projetos individuais de um professor com seus alunos. 

Quais são os principais projetos ambientais da Coordenadoria dentro da UFSC? 
Os projetos que estão em andamento são vários. Um deles é dos resíduos sólidos e dentro desses, tem redução, reciclagem e reuso, envolve todo o resíduo sólido dentro do Campus: papel, metal e vidro. Tem o material que pode ser reciclado e outros que não dá para reciclar. Material que sai dos banheiros não pode ser reciclado, então ele tem que ser encaminhado para um aterro sanitário. O material que pode ser reciclado é coletado pela empresa Promenor, que tem um convênio com a Universidade. Ela vem, empacota o material e o caminhão leva para o centro de triagem e encaminha para as empresas que fazem reciclagem: papel, plástico, etc. Aí, dentro do Campus, tem várias pessoas que fazem esse trabalho de forma individual que nós estamos tentando englobar dentro do projeto.  

Quanto de lixo se produz no Campus? 
São dois caminhões por semana, no período normal de aula. Lixo reciclável, que pode ser reusado, lixo bom. Isso dá um volume de 2.000 quilos por caminhão. Fora o trabalho das pessoas que fazem a coleta individual. Tem funcionários que ainda fazem coleta individual de papel, guardam num cantinho, o chefe de Departamento aceita que a pessoa coloque lá, mas isso dentro da qualidade total que nós estamos buscando, você não pode fazer. Colocar em qualquer lugar, isso não funciona assim. Nós temos que passar para uma etapa de conscientização das pessoas que esse material tem que ser coletado de uma forma correta, que não dá para colocar embaixo de uma escada, dentro de um banheiro, etc e tal. A parte dos banheiros, que é um material contaminado, esse material ele vai diminuir bastante a partir do momento que a CASAN termine a rede de esgoto. Até novembro, que é a previsão para terminar, religando o sistema, toda a Universidade vai estar ligada na coleta de efluentes e o papel higiênico usado vai embora junto, não precisa mais coletar. Feito isso, vai diminuir o volume desses resíduos e o potencial de contaminação de pessoas por causa desse problema de ficar transitando e transportando esse material. 

E os outros resíduos sólidos? 
Bom, dentro do lixo sólido, nós temos também as pilhas, as baterias e o lixo hospitalar. Pilhas e baterias: nós temos a legislação municipal que, agora, foi refeita em 2.000 e acabou criando um problema porque a legislação estadual já previa que todas as empresas que produzem e vendem pilhas e baterias são obrigadas a receber esse material de volta. Isso já existe esse tipo de organização na cidade. As grandes empresas já aceitam esse material de volta. Os pequenos comércios ainda não estão aceitando isso muito bem. Agora, a prefeitura municipal mudou a legislação interna do município em setembro do ano passado e criou alguns empecilhos, digamos, porque essa legislação prevê que quem coleta esse material é a própria prefeitura que deve acondicionar esse material num local que não pode ser dentro do município de Florianópolis. Isso é ridículo porque o lixo é nosso, portanto o problema é nosso também. Não se pode querer que um município vizinho receba um lixo que é produzido pela cidade de Florianópolis. Por outro lado, pela legislação estadual, nós temos como trabalhar com esse material e devolver as pilhas para as empresas que produzem. As lâmpadas fluorescentes é o mesmo problema. Nós temos que encaminhar para quem consegue fazer a descontaminação e o tratamento de reciclagem. Na primeira etapa, nós treinamos os nossos técnicos em eletricidade, que fazem a troca das lâmpadas, e esse material está sendo coletado. Nós já enviamos para descontaminação cerca de 7.000 lâmpadas, que foram enviadas no ano passado. Fizemos concorrência pública e a empresa que venceu foi de Santa Catarina, a Recicla Brasil, ela levou e nos devolveu um certificado de descontaminação. Só que a descontaminação custa dez centavos por lâmpada. No entanto, como a legislação estadual prevê, as empresas que produzem esse material são responsáveis por receber e levar esse material. Então, o nosso orçamento de compra, a partir do novos editais, inclui que quem vencer o edital, vai ter que receber de volta, num período de dois anos, o mesmo volume de lâmpadas que foi vendido. Isso vai ser agregado aos contratos com fornecedores. Bem como os restaurantes e bares da Universidade, nos contratos de licitação, são obrigados a gerenciar os resíduos sólidos de acordo com o gerenciamento da universidade. Então, eles tem que comprar os containers adequados e guardar esse material para ser enviado para reciclagem, quando é material de reciclagem, ou então para compostagem, quando é resto de comida. Quem não fizer da forma correta, nós já temos um instrumento legal de cobrança. Alguns bares ainda não tem isso porque ainda estão no edital antigo.  

E o lixo hospitalar? 
Todo lixo hospitalar e de laboratórios de pesquisa que envolvam animais. toda pesquisa que usa animais, acaba com carcaças e com materiais contaminados biologicamente. Todo esse material tem que ser acondicionado em containers adequados, é obrigado a ser esterilizado e encaminhado para empresas que fazem essa coleta.  

Uma parte do lixo aproveitável poderia ser utilizado por biodigestores que estão em funcionamento dentro da própria UFSC? 
O lixo orgânico, por exemplo, restos de comida, está todo sendo usado pela Universidade. É feita a compostagem, gera o composto que é usado como adubo e é vendido para quem quiser comprar.  

Mas tem um problema aí que é a divulgação dessas informações. 
Então, qual é o nosso problema agora? Por isso, o evento que fizemos (Semana do Meio Ambiente). O objetivo era chamar a comunidade universitária para que ela passe a fazer parte desse trabalho formiga, digamos, para distribuir para todo mundo. O material que estamos fazendo tende a esse tipo de organização. Então, o que pretendemos fazer? Vamos fazer um vídeo, todos os calouros que entram vão assistir a uns 15 minutos de vídeo para saber o que está acontecendo no Campus. Os alunos de iniciação científica estão recebendo treinamento antes de ir para os laboratórios sobre segurança, a parte de ética, quem trabalha com animais, etc. Então, o lixo sólido. foi feito um convênio com a Promenor porque nós precisamos de alguém que trabalhe a nível de Universidade como um todo, que leve o lixo que é bom e o que não é tão bom. Para a Universidade segregar esse material e vender, nós teríamos que ter uma microempresa para esse trabalho. Como todo sistema federal está sendo terceirizado, para a Universidade assumir isso é impossível. Você não pode assumir isso com alunos. Porque aluno não pode ser usado como mão-de-obra de um trabalho que vai ser rotineiro. Ele tem que ser usado como pesquisador. Quando se está trabalhando num trabalho específico que é de pesquisa, faz sentido ter alunos envolvidos. Quando se passa para um sistema rotineiro, não faz sentido. 

Mas usar esses alunos, como voluntários, em programas de multiplicação de informação? 
Nisso que estamos trabalhando. Tanto que estamos com 12 bolsistas aqui, nesse semestre, na Gestão Ambiental. Esse trabalho também é chamar o pessoal que queira se engajar, como voluntário. A Gestão Ambiental não tem recursos próprios. A Gestão Ambiental foi criada para gerenciar, não para executar. A matriz de distribuição de recursos dentro da Universidade só prevê distribuição de recursos com unidades universitárias, ou seja, centros e unidados tipos BU, PU, HU, etc. Então, quando o dinheiro vem, esses recursos são jogados dentro da matriz, isso já existe dentro do planejamento da SEPLAN, e ela verifica o que cada unidade tem e faz os cálculos para jogar quanto dinheiro vai para cada um. Então, quem é que vai ter dinheiro para comprar e trabalhar com isso? São os centros, as unidades. É claro que os diretores de Centro já tem interesse em instalar, por exemplo, lixeiras como aquelas de quatro cores (seletivas). Eles já vieram procurar aqui. Nós estamos com esse processo esquematizado, agora estamos fazendo a normatização desse material. Todos os centros vão ter que assumir o mesmo tipo de norma e eles vão implantar isso de acordo com os seus recursos. Foi feito com os resíduos hospitalares e, agora, com os resíduos químicos também. Todos os laboratórios que produzem resíduos químicos foram cadastrados, todos os coordenadores foram cadastrados, o tipo de resíduo que o laboratório gera, etc, e a Coordenadoria de Gestão Ambiental entrega o material necessário para guardar esse resíduo, recolhe esse material, faz a triagem e entrega para a empresa que leva esse material.  

Então, a Coordenadoria não tem orçamento? Alguns pesquisadores reclamam que não tem recursos para implantar algumas coisas. 
A Gestão Ambiental não tem orçamento nenhum. É um órgão de gerenciamento, não é um orgão executivo. Nós estamos ligados diretamente ao Gabinete do Reitor, o material de expediente pega de lá, papel, etc. Mas nós não temos dinheiro nenhum. O que nós estamos fazendo é submeter alguns projetos à Fundação Nacional do Meio Ambiente, onde a gente possa ter algum projeto aprovado. Aí, sim, nós teríamos recursos. Por exemplo, dentro dos editais dessa Fundação, tem o edital de resíduos sólidos, e nós estamos trabalhando nisso. Se ele for aprovado, aí incluiria compra de lixeiras para toda a Universidade, por exemplo. Seria muito mais rápida a implantação porque não dependeria dos diretores dos Centros. De qualquer maneira, nós temos que ter os diretores de Centro trabalhando em harmonia com os chefes de Departamento e com toda a estrutura universitária. Se não, nós voltamos novamente à estaca zero, onde cada um fazia as coisas com o que achava que tinha que fazer.  

Agora, o Campus é uma cidade, praticamente. 
É, são vinte mil pessoas. O Campus é uma cidade, com um agravante: tem um pessoal flutuante muito maior do que uma cidade. Uma cidade de 20.000 habitantes, tem 20.000 pessoas que moram e vivem lá. Aqui, não. Nós temos alunos que entram e, a cada quatro, cinco anos, renova todo o plantel. O nível de trabalho e conscientização na Universidade é maior do que em um município. Claro, por um lado, nós temos esse fluxo muito grande de pessoas, mas por outro lado, também temos a facilidade que trabalhamos com pessoas de nível superior. A princípio, é mais fácil porque a linguagem que se fala é mais rápida de ser entendida. Trabalhar com alunos é muito fácil. É uma clientela que aceita muito rápido, que assimila rápido quando a idéia é boa, e você tem um retorno muito rápido. 

E essa população de servidores, que é mais permanente, porém heterogênea, com formações e culturas diferentes? 
Eu diria que aí temos a resistência. A maior resistência é entre os servidores e os professores, principalmente. Eu acho que a maior resistência é entre os professores da Universidade. Porque professor, infelizmente, assume essa postura. porque a Universidade dá essa liberdade de cada professor assumir um nível de trabalho, de responsabilidade, que é quase um projeto individual de cada um, então eles se acham com direito de fazer o que tem que ser feito da maneira que ele acha que tem que ser feito, independente de como a administração universitária está trabalhando essa questão. Eu diria que a maior dificuldade que nós temos, hoje, é com os professores, de falar a mesma linguagem. Porque como o professor atua diretamente com o estudante. se eu partir para uma discussão com o estudante e falar para ele: olha, funciona assim, e ele entrar numa sala de aula, em seguida, e o professor falar: não, não é assim, isso interrompe todo um trabalho que é feito com o aluno e ele fica confuso e já não sabe mais prá que lado correr. Um dos problemas é falar a mesma linguagem. Acho que essa parte é a mais difícil. Tem vários motivos. Um deles, talvez, é porque falta informação circulando em nível geral dentro da Universidade. Outro é porque os professores, às vezes, acham que o que está sendo feito agora é porque quem está agora na Reitoria é o Prof. Rodolfo, então é a gestão do Prof. Rodolfo, e eu sou contra a gestão do Prof. Rodolfo, então eu não vou fazer nada disso. Isso não tem nada a ver. Para quebrar esse tipo de postura, tem que trabalhar com muito carinho, tem que ir corpo a corpo com os professores e mostrar que isso que está sendo feito é um trabalho sério, que é importante, que a gente precisa fazer. 

Duas outras questões importantes: o problema da água dos córregos e do tráfego de veículos dentro do Campus.  
Essa última questão faz parte do Projeto Humanização do Campus. Existem várias idéias e questões. O tráfego foi aberto ali (próximo à Reitoria) por um período curto enquanto se termina de fazer toda essa parte da Casan. A prefeitura municipal também tem um projeto na área do Santa Mônica para mudar o trânsito por aqui. Na Praça Santos Dumont, o trânsito que vem da Serrinha vai passar atrás da Igreja, vai mudar o fluxo. Para o futuro, a idéia é fechar essa rua na frente do Banco do Brasil para diminuir o ruído e diminuir o tráfego de caminhão, ônibus, etc. Dentro da perspectiva de humanização do Campus tem o projeto do bicicletário, praticamente concreto, já está em licitação. Vai sair. Os riachos do Campus vão passar a ser limpos a partir do momento que a Casan limpe o sistema de coleta de resíduos. É claro que, nesse caso, nós fazemos ter que fazer um projeto muito grande com o entorno da Universidade porque a contaminação deles não é do Campus, é de fora. Aliás, nós fizemos, com alunos de iniciação científica, algumas análises da água de todos esses córregos. Lá na Carvoeira, ou na Serrinha, ou no Pantanal, onde eles entram no Campus, é mais sujo lá do que no final. Se você fizer uma análise da demanda de oxigênio, tanto química quanto bioquímica, a demanda é maior lá na entrada no Campus do que no final. Ou seja, durante o percurso que ele transita no Campus, o sistema vai se depurando e ficando melhor. Esse cheiro que você sente é exatamente a emanação de sulfetos pela decomposição da máteria orgânica através de bactérias. Ocorre o mesmo em uma lagoa de estabilização. Então, se a gente tirar todo esse esgoto que entra no Campus da comunidade que mora ao redor, nós vamos ter esses riachos limpos de novo e, fatalmente, também pela coleta que vai ser feita com rede instalada pela Casan. Acho que, a partir do ano que vem, nós vamos ter uma melhoria gradativa de todos esses riachos. Quem sabe, em um ano e meio, nós vamos ter esses riachos com peixinhos de novo. Então, com relação aos riachos e ao trânsito, nós vamos ter uma situação muito mais tranquila do que é hoje. Só que nós vamos Ter que trabalhar pesadamente com a questão da prefeitura municipal porque nós não podemos continuar abrindo estacionamentos dentro do Campus. Acho que nós temos, na humanização do Campus, diminuir o número de veículos e incentivar as pessoas virem de ônibus ou de bicicleta. (.) O nosso Campus é bonito. Se você visita outros Campus universitários federais, estaduais ou até particulares, vê que o nosso Campus é muito bonito, mas só isso não é suficiente porque nós estamos, inclusive, dentro de uma região que é próxima de um mangue. Com isso, nós temos todo aquele projeto de parque do manguezal, que ainda é um projeto, e nós temos que cuidar dele também porque faz parte também que é o complexo da Bacia F. Esse mangue faz parte da Universidade e do município, ou seja, a Floram e a UFSC tem um projeto conjunto para transformar aquilo ali em um parque do município. Já foi encaminhado um projeto ao Banco Mundial. Esse projeto é muito bonito, que prevê a possibilidade de fazer visitas guiadas ao parque, para ver o que é o mangue, até mesmo porque nós temos vários na ilha, e todos estão sofrendo deterioração por causa da comunidade que está avançando sobre eles, jogando lixo, etc. O mangue é um viveiro de criação de peixes, crustáceos, etc, e é muito importante para o ecossistema da ilha, nós não podemos perder isso.  

A população do Campus está se educando com a coleta seletiva de lixo? 
Olha, eu diria que a quantidade que a gente vê pelo chão, dentro do Campus, é muito pequena, mas eu acho que nós precisamos melhorar ainda o sistema porque a população não tem uma idéia clara do que está acontecendo. Então, se você olhar essas lixeiras de quatro cores, mais a preta, essas cores são universais. O azul, o amarelo, o vermelho, o verde e o preto. em qualquer lugar do mundo, você vai encontrar essas mesmas cores para o mesmo material.  É uma maneira de educar as pessoas para usarem as cores que são padrão. Por outro lado, a gente sabe que, no Brasil, a reciclagem ainda é feita por pessoas que tem renda muito baixa ou renda nenhuma. Na verdade, não a reciclagem propriamente, mas a triagem do material, esse é o emprego que eles têm. Se você elimina esse trabalho, você acaba eliminando o emprego dessas pessoas. Então, nós temos um problema que temos que trabalhar melhor. O volume de pessoas empregadas nesse trabalho é muito grande. A Promenor, por exemplo, é uma empresa filantrópica, ela tem mais de cem funcionários que trabalham com triagem. Claro que, para o futuro, você poderia pensar que todo papel deveria estar acondicionado de forma correta, que qualquer pessoa viesse e pudesse levar embora, sem precisar fazer uma triagem extra. Hoje, nós não temos condição de fazer isso. Por isso é importante ter essas lixeiras com essas cores, para todo mundo conhecer. Quando o pessoal do Promenor vai nas lixeiras, eles tiram e colocam tudo junto de novo. Por que? Aqui, a separação não é muito boa e porque eles vão Ter que separar tudo de novo lá. De qualquer maneira, eles preferem colocar tudo junto e separar lá. Então, prá nós, aqui dentro do Campus, se tivesse duas ou três lixeiras com cores diferentes seria suficiente, mas, por outro lado, isso acaba não criando aquele princípio básico de educação ambiental de separar o material, como é em países desenvolvidos. A lixeira preta, então, é prá esse tipo de lixo que é misturado, que não dá prá separar ainda, tem que ser levado junto. 

Além da descontaminação das lâmpadas, em que outros trabalhos a Coordenadoria está trabalhando junto com o Programa Interno de Conservação de Energia (PRUEN)? 
Temos dois programas: o programa de conservação de energia e o programa de conservação e reuso da água. Esses projetos foram incorporados pela gestão ambiental e, inicialmente, eram projetos separados. Existe há mais ou menos dois anos, um grupo de pessoas da Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica, entre outros, que tem projetos com a parte elétrica. Alguns projetos já foram incorporados dentro da Universidade, que é a melhoria de reatores e lâmpadas para ver todo esse fluxo, até prá normatizar isso. Então, é um trabalho que está sendo feito há mais de ano e, agora, com essa necessidade urgente de reduzir gastos, nós estamos incentivando esse processo e transformando ele num processo mais rápido com propaganda, etc, mas ele já existia esse trabalho, só que a passo mais lento. Agora, ele se tornou um projeto de prioridade máxima, justamente com essa questão de conservação de energia. Dentro desse Programa, nós temos a parte de divulgação das idéias, o pessoal que trabalha na parte técnica, dimensionamento de lâmpadas, etc, e a parte de pesquisa, um grupo que verifica a melhor lâmpada, o melhor reator, fazer medidas de luminosidade em locais para saber qual é o tipo de lâmpada adequado, se tem lâmpada em excesso ou é deficiente. São três grupos de trabalho. 

O Campus tem uma série de equívocos nas construções. Para as futuras construções: já existe algum tipo de normatização com aproveitamento dos regimes dos ventos, da luminosidade natural, etc? 
Está sendo feita uma cartilha de normatização nessa parte de construção. O que, normalmente, acontece numa universidade pública como a nossa? O governo federal, por exemplo, no dia 27 de dezembro acena com 500 mil reais para construir um prédio. Então, você tem que mostrar até 30 de dezembro, um projeto. O que o Reitor faz? Verifica as prioridades que existem e sai como um louco ver quem tem uma planta pronta. Pega-se essa planta e manda, é essa que vai ser feita e pronto. Então, acontecem muitos erros de construção porque, às vezes, é um projeto mal elaborado, feito às pressas, onde toda a parte elétrica, de água, de iluminação, p. ex., mal dimensionada. O que nós queremos é tudo isso seja previsto, antes de começar a construção. (.) O último prédio inaugurado aqui foi o prédio da Matemática, ele já tem tem toda essa previsão, inclusive cabos de rede, a parte de ar condicionado com saída para água não ficar pingando, a parte de controle de luminosidade, a posição correta das luminárias, etc. Tudo isso está sendo revisto, claro que não é uma coisa muito simples porque a Universidade é muito grande. Normalmente, as coisas são feitas muito às pressas, quando aparece o dinheiro, você tem que estar com o negócio pronto, aí se esquece de toda essa questão, acaba cometendo erros, verificando que quando o prédio está pronto, precisa gastar o dobro depois para instalar ar condicionado, luminárias, etc. No prédio do CCE, em cima do bar do Básico, todos os aparelhos de ar condicionado estavam pingando em cima da entrada. Nós fizemos um trabalho, onde a prefeitura do Campus orçou, foram cinco mil reais para colocar encanamento para evitar que os aparelhos pinguem em cima da cabeça de quem passa por ali. É uma área gostosa, onde as pessoas ficam por ali, entre uma aula e outra, batendo papo, não pode ser um lugar onde as pessoas não possam sentar porque tem um ar condicionado que pinga na cabeça. Além do aspecto ruim. Veja, foram quase seis mil reais, um trabalho que não precisava ser feito se tivesse sido previsto na construção.  

A Universidade gasta muito com água? 
A luz e a água, digamos assim, são a pedra no sapato da Universidade. Dentro desses projetos, a questão de economizar água e energia entra exatamente na questão de que se você economiza, você pode usar esse dinheiro para outros benefícios. 

O Sr. tem os valores desses gastos? 
Bom, nós fizemos um levantamento agora. Luz está na faixa de R$ 350 mil, em média, por mês. Água está na faixa de R$ 80 mil, em média, por mês. 

Isso é bastante ou é muito para uma instituição do tamanho da UFSC? 
É bastante. Eu diria que, dentro do estado de Santa Catarina, a Universidade é o maior consumidor. Considerando empresas de grande porte de Blumenau, ou outras empresas, eu tenho impressão de que a UFSC é quem mais gasta energia. É claro que isso não é uma coisa muito simples porque você tem, por outro lado, um Campus com um nível das melhores universidades do Brasil, está crescendo, a pesquisa da UFSC está entre as pesquisas de ponta no Brasil, então você pode tem equipamentos de grande porte, equipamentos sofisticados que requer manutenção e é normal que se gaste bastante energia. Acho que, dentro dessa perspectiva, existe a possibilidade de se instalar uma termoelétrica dentro do Campus exatamente para tentar resolver esse problema.  

Mas a termoelétrica não vai poluir? 
Depende. A idéia seria utilizar o gás natural. Essa é uma possibilidade interessante porque esse gás natural comprado da Bolívia, é um gás mais barato, a emissão de poluentes pela queima do gás é muito baixa. Então, produz CO2, mas partículas sólidas, muito pouco. Eventualmente, você pode colocar filtros para diminuir a emissão de CO2 e, por outro, você teria todo o aquecimento de água, isso poderia ser usado por todos os locais da Universidade, como o HU e o próprio Restaurante Universitário, diminuiria muito o uso de energia elétrica. 

Mas esse gás natural é importado, é pago em dólar. 
Ele é pago em dólar, mas se você considerar R$ 350 mil por mês de energia elétrica. se você investir R$ 350 mil por mês, você consegue construir uma usina termoelétrica de pequeno porte, que geraria energia suficiente para a Universidade e ainda conseguiria, talvez, vender energia para a região em torno da Universidade.  

E o projeto das placas com coletores de energia solar? 
Existem muitas alternativas. O Labsolar está trabalhando nisso. Nenhuma das alternativas pode ser excluída, mas, de fato, para resolver o problema de energia no Campus, a energia solar não é suficiente e é muito cara. Você não teria como resolver o problema com energia solar e muito menos com energia eólica. Mas é claro que essas energias não podem ser desprezadas, elas têm que ser somadas ao sistema, até porque, nos projetos de pesquisa, você tem que ter esse material andando. É uma energia que, no futuro, com certeza, vai ter que ser melhorada e ser usada porque é energia limpa.  

O verão é um período crítico, no Campus. Não se consegue trabalhar sem ar condicionado e, muitas lugares, sem a luz acesa. Tem se repetido, a situação de que, vez em quando, a subestação não suporta a demanda. 
Exatamente. Nós fizemos um levantamento no CFM (Centro de Ciências Físicas e Matemática). De manhã cedo, tipo seis horas, o gasto é de 10. não sei exatamente se é 10 KW. sei que é 10 amperagem medida na subestação da CFM. Quando chega em torno de 11 horas, você está em mais de 100. Então, você passa e multiplica por um fator de 10. Isso nessa época do ano (junho), sem muito ar condicionado. Então, imagina no período de pico do verão, com dias extremamente quentes. Depois do dia 15 de dezembro, começa a diminuir o fluxo de gente no Campus. Mas março, por exemplo, quando a maioria já está de volta, se tem valores astronômicos de gasto de energia por causa de ar condicionado, equipamentos funcionando. Isso, realmente, não dá prá achar que se resolver apenas com sistemas de iluminação, apagar luz, isso não é suficiente. Os grandes vilões são os aparelhos de ar condicionado e os grandes equipamentos, e isso não dá realmente prá desligar. Com relação à água, os grandes gastos são com o Hospital Universitário, o Restaurante, o prédio da Química, onde tem muitos laboratórios, mas para diminuir não é uma coisa fácil. O HU já tem internamente um gerenciamento razoável da água, você consegue melhorar, consegue diminuir, mas não muito. O que dá é reusar a água porque a lavanderia gasta muita água, faz dez enxagues para garantir que a roupa saia limpa. Então, a água depois do quinto enxague, poderia ser armazenada numa cisterna e reusar depois em outros setores. Na Química, por exemplo, nos laboratórios, se pode até pensar em reusar a água, mas também tem o problema da contaminação. Porque se você reusa a água que está contaminada, você pode contaminar o sistema e acabar prejudicando a saúde das pessoas ou até o meio ambiente. Tem que ter um cuidado muito grande. Nesse bicicletário novo que está sendo construído existe todo um sistema de reuso de água, onde a água que sai das pias e dos chuveiros é coletada, a água de chuva que cai no telhado é coletada e volta para o sistema para a descarga dos sanitários. Nos prédios novos também pode se construir dois sistemas com caixas de água, um para sistema de descarga e outro para sistema de água normal. Hoje, na Universidade, todo o nosso sistema de banheiros é com fossas e sumidouros e esse sistema, numa bacia como a nossa aqui, não funciona muito bem. Porque nós temos uma bacia muito baixa, se cava e a um metro tem água. Então, as nossas fossas já estão com água até a metade, qualquer chuva acaba transbordando. Isso é ruim porque acaba contaminando o lençol freático. Então, o sistema de tratamento da Casan é muito importante. O Hospital Universitário, que é um local mais crítico, tem um sistema de tratamento de esgoto que funciona razoavelmente bem. Nós estivemos fazendo análises periódicas e a água que sai lá é razoável, não tem grandes problemas. 

O Sr. falou em mobilizar as pessoas externas que prestam serviços também à Universidade nesse grande projeto de gestão. E o caso dos bancos, da farmácia? É a mesma coisa. Eles atuam por processo de licitação. O Banco do Brasil, a Caixa e o Besc, na época em que se instalaram, se instalaram por vinte anos. Me parece que são vinte anos. Dependendo do tipo de contrato, você não pode impor nada porque não tem como cobrar. Tem que negociar a questão de eles se adaptarem. Eles tem que entrar no mesmo processo. Bem como os Colégios Agrícolas de Camboriú e Araquari, que também fazem parte da Universidade, e a gestão ambiental também está atuando lá. Eles estão trabalhando com a mesma filosofia, com o nosso apoio, porque eles têm criação de animais, é uma questão mais específica. O objetivo final é a possibilidade de ter uma ISO 14.000. Nós estamos trabalhando para isso.

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